Jovens incluídos nos espaços de tomada de decisão — ótimo. Histórias de comunidades de base ganhando visibilidade — incrível. Celebrar a resiliência — claro que sim!

Mas nada disso tem valor se as conversas não se transformarem em ação.

A empreendedora social Anoushka Sinha é ativista de direitos humanos há muito tempo. Na verdade, ela começou aos 10 anos e, na última década, tem trabalhado para ampliar o acesso a oportunidades para meninas em todo o mundo.

Seu trabalho é voltado para a redução das desigualdades por meio do acesso. Em resumo, ela defende que crianças em todo o mundo tenham mais oportunidades.

Com diversos reconhecimentos, incluindo a lista Forbes 30 Under 30 (Índia) e o Diana Award, concedido pela Família Real Britânica, Sinha sabe bem do que está falando quando o assunto é defender causas.

Ela acredita que as palavras têm importância, mas que as ações sempre falarão mais alto.

Como vencedora do Global Citizen Prize, Anoushka quer dar início a essa parceria sem perder tempo.

Como parte do prêmio, ela terá um ano para desenvolver sua iniciativa com o apoio da Global Citizen.

“Daqui a um ano, não quero que essa parceria exista apenas nas manchetes ou nas redes sociais. Quero que gere um impacto concreto. Quero que mais meninas tenham acesso à educação e a oportunidades de liderança porque as conversas se transformaram em ação. Quero que histórias de comunidades de base — especialmente do Sul Global — ganhem visibilidade no mundo de forma autêntica, e não apenas por aparência. Quero que jovens sejam incluídos nos espaços de tomada de decisão não como mera decoração, mas como participantes cujas experiências de vida têm valor”, afirma.

Sinha quer levar essas conversas para além da inspiração.

“Não precisamos de mais espaços que apenas celebrem a resiliência enquanto ignoram os sistemas que obrigam as pessoas a serem resilientes em primeiro lugar. Espero que o trabalho que faremos juntos incentive as pessoas a refletirem de forma mais crítica sobre desigualdade, educação, gênero e acesso.”

Sinha works with young people on initiatives related to education, leadership, digital literacy, and the Sustainable Development Goals. Image: Supplied

Sinha works with young people on initiatives related to education, leadership, digital literacy, and the Sustainable Development Goals. Image: Supplied

At 23, Anoushka Sinha has worked with organizations including UNICEF, UNESCO, the World Bank, and UN Women on issues affecting young people. Image: Riccardo Alfano for Global Citizen

At 23, Anoushka Sinha has worked with organizations including UNICEF, UNESCO, the World Bank, and UN Women on issues affecting young people. Image: Riccardo Alfano for Global Citizen

Anoushka Sinha says she hopes to turn conversations into action through her partnership with Global Citizen. Image: Riccardo Alfano for Global Citizen

Anoushka Sinha says she hopes to turn conversations into action through her partnership with Global Citizen. Image: Riccardo Alfano for Global Citizen

No começo de tudo

Aos 23 anos, Sinha, nascida e criada na Índia, já acumula mais de uma década de experiência na defesa de causas e em iniciativas comunitárias.

Seu trabalho começou quando ela passou a questionar as barreiras que observava em sua comunidade. Era a criança que fazia perguntas difíceis e saía em busca de respostas quando as explicações simplesmente não eram suficientes.

“Muito do meu trabalho na defesa de causas vem de ter vivido, na prática, situações em que me senti ignorada ou subestimada. Esses momentos me marcaram profundamente. Eles me fizeram perceber o quanto o silêncio pode se tornar perigoso quando as pessoas passam a aceitar a desigualdade como algo normal. Acho que a defesa de causas se tornou a minha forma de me recusar a aceitar esse silêncio”, compartilha.

“Cresci em ambientes onde se esperava que meninas suportassem a desigualdade em silêncio. Vivi situações de bullying, discriminação e momentos em que minha voz era vista como inconveniente simplesmente porque eu era apenas uma menina falando alto demais sobre coisas que as pessoas preferiam tratar como normais. Em casa, na escola e na sociedade, aprendi de diferentes formas como é fácil dizer às meninas que diminuam a si mesmas. Mas, em algum momento entre essa dor e esse silêncio, me tornei obstinada.”

Essa determinação tem beneficiado tanto Sinha quanto sua comunidade. Ela lidera a Anupam Foundatione iniciativas como a Girllytical, que atuam nas áreas de educação para meninas, alfabetização digital, acesso às áreas de STEM, liderança jovem e igualdade de gênero.

Por meio desse trabalho, ela colaborou com organizações como UNICEF, UNESCO, Banco Mundial e ONU Mulheres.

“Mas os momentos que mais permanecem comigo nunca são os mais glamourosos. São os momentos silenciosos. Uma menina me dizendo que continuou na escola porque alguém finalmente acreditou nela. Um estudante tocando em um computador pela primeira vez. Jovens mulheres dizendo que finalmente se sentem vistas. É isso que realmente importa para mim. Não os títulos nem os aplausos, mas o impacto real que transforma vidas.”

Uma voz que não será silenciada

Quando o assunto é impacto, Sinha tem liderado importantes iniciativas voltadas à igualdade de gênero ao longo de sua trajetória — uma causa da qual ela nunca pretende abrir mão.

Ainda na pré-adolescência, tornou-se a apresentadora de programa de rádio mais jovem da Índia e uma defensora incansável dos direitos das meninas em uma época em que essa pauta ainda recebia pouca atenção.

Na adolescência, tornou-se uma das mais jovens conselheiras de organizações como o Banco Mundial.

Ao falar sobre a inspiração por trás do seu trabalho, ela não mede as palavras.

“Acho que as pessoas acreditam que a defesa de causas começa com a inspiração. Para mim, ela começou com a raiva. Eu sentia raiva de como a desigualdade era tratada como algo normal. Raiva de meninas aprenderem a pedir desculpas por ocuparem espaço. Raiva de crianças terem que carregar o peso de problemas criados por adultos. Raiva de algumas pessoas precisarem lutar dez vezes mais apenas para ter acesso a oportunidades que outras recebem sem qualquer esforço”, afirma.

“Mas, mais do que raiva, eu me lembro de me sentir invisível. Ainda criança, entendi como era ter os meus sentimentos desconsiderados, não ser ouvida e precisar enfrentar constantemente ambientes que faziam eu me sentir menor. Quando você vive isso de forma profunda, começa a reconhecer essa invisibilidade em todos os lugares — nas salas de aula, nas comunidades, nas políticas públicas e nos sistemas. Aos 10 anos, comecei a organizar campanhas comunitárias porque percebi muito cedo uma coisa importante: o silêncio protege os sistemas, não as pessoas.”

O rádio lhe deu uma plataforma, e ela nunca mais olhou para trás.

“E, de repente, percebi como as histórias podem ser poderosas. Os dados informam, mas são as histórias que mobilizam. Elas tornam a injustiça impossível de ignorar. Isso mudou completamente a minha vida. Deixei de enxergar a defesa de causas como uma forma de ‘ajudar as pessoas’. Passei a entendê-la como uma forma de redistribuir poder, visibilidade e oportunidades.”

Os desafios de defender causas

Lidar com as próprias experiências enquanto conta as histórias de outras pessoas nem sempre é fácil.

Hoje, Sinha carrega histórias que jamais conseguirá esquecer.

“As pessoas costumam romantizar o trabalho de defesa de causas. Veem os painéis, os discursos e os reconhecimentos. O que não veem é o peso emocional de testemunhar a injustiça de perto constantemente. Conheci meninas obrigadas a abandonar os estudos por causa da pobreza. Jovens mulheres brilhantes que foram levadas a acreditar que seus sonhos eram inalcançáveis. Crianças que já falam sobre sobrevivência em vez de possibilidades.”

Segundo ela, essas conversas ficam com você.

“E, às vezes, a parte mais difícil é saber que as mudanças estruturais acontecem de forma dolorosamente lenta, enquanto a vida das pessoas não pode esperar. Também acredito que ser uma jovem mulher na defesa de causas traz desafios próprios. Ainda existem espaços em que os jovens são convidados apenas de forma simbólica, sem uma participação realmente significativa. Você é celebrado por ser ‘jovem’ até que suas opiniões se tornem incômodas. As pessoas gostam de ouvir vozes jovens até o momento em que essas vozes desafiam diretamente as estruturas de poder. Já enfrentei ameaças à minha vida, pressão pública, luto e incertezas, tudo isso enquanto buscava continuar liderando com responsabilidade.”

Se há uma coisa que ela aprendeu, é que “mudar o mundo não é um trabalho glamouroso. É um trabalho repetitivo, emocionalmente exaustivo e, muitas vezes, invisível.”

Alcance global 

Depois de anos na linha de frente da defesa de causas, conquistar o Global Citizen Prize representa, para Sinha, um momento para respirar.

Mas ela deixa claro que isso está longe de ser a linha de chegada. “É um lembrete de que preciso trabalhar ainda mais para garantir que as pessoas e comunidades que represento não sejam apenas ouvidas temporariamente, mas também apoiadas de forma significativa. Esse prêmio é a prova de que nossas histórias também merecem espaço.

Penso constantemente na minha versão mais jovem, questionando se a sua voz realmente importava. Penso em cada menina que já foi levada a se sentir ‘emocional demais’, ‘ambiciosa demais’, ‘barulhenta demais’ ou ‘difícil demais’ simplesmente porque se recusou a permanecer em silêncio”, afirma.

“Mais do que isso, esse reconhecimento dá visibilidade às comunidades e às causas pelas quais venho lutando há anos — educação para meninas, liderança jovem, justiça de gênero e acesso igualitário a oportunidades. O reconhecimento amplia o alcance. E o alcance traz responsabilidade.”

A resiliência como força

Sinha se dedica profundamente ao trabalho que realiza. A ativista, que também é cantora com formação em música clássica, compartilha um pouco sobre os momentos que ajudaram a moldar a mulher que ela é hoje.

Perder o pai foi um deles.

“Depois que perdi meu pai, a vida mudou profundamente em muito pouco tempo. Houve momentos que me transformaram para sempre. Momentos que me fizeram entender o peso que o mundo pode ter para mulheres e meninas, de quem se espera constantemente que suportem mais, expliquem menos e sigam em frente mesmo assim.”

Foi nesse período que ela começou a compreender o verdadeiro significado da palavra resiliência.
“Pessoalmente, aprendi o que é resiliência ao ver as mulheres ao meu redor sobreviverem a situações que jamais deveriam ter precisado suportar. Cresci vendo a força se tornar uma necessidade em vez de uma escolha. Vi mulheres carregarem luto, pressão, sacrifício e dor enquanto ainda se esperava que mantivessem tudo sob controle. Vi o silêncio se tornar sobrevivência”, afirma.

“Houve momentos em que me senti exausta além do que as palavras podem descrever. Mas aprendi algo importante: resiliência não é acordar todos os dias se sentindo forte. Resiliência é escolher continuar quando a força parece não existir. E, sinceramente, às vezes o que me faz seguir em frente é a pura recusa. A recusa em permitir que meninas continuem acreditando que são inferiores. A recusa em normalizar a injustiça. A recusa em aceitar sistemas falhos em silêncio. Acho que a esperança é poderosa, mas, às vezes, a recusa em se conformar também é.”

Advocacy

Derrote a Pobreza

Como Anoushka Sinha transformou vivências de infância em ativismo

Por Thulani Gqirana