A crise climática vem alimentando eventos extremos em todo o continente africano — de enchentes e ciclones mortais a incêndios florestais intensos e ondas de calor. E, neste ano, as temperaturas recordes e as chuvas atrasadas no sul da África estão mostrando que não vai ser diferente.

Algumas partes do sul da África receberam metade ou até menos da chuva que costuma cair no primeiro semestre de 2024. O resultado é uma seca extrema que ameaça empurrar mais de 24 milhões de pessoas para a fome severa. Por isso, os governos de Zâmbia, Zimbábue e Malaui declararam emergências nacionais para alertar sobre a crise humanitária crescente e pedir ajuda urgente.

“O que a gente está vendo agora é que a região precisa desesperadamente de água”, disse Paul Skoczylas, diretor do escritório do Programa Mundial de Alimentos (WFP) em Nova York, ao Global Citizen. “Para uma região que deveria ser considerada o celeiro da África, as pessoas que produzem comida agora precisam de comida. A situação está nesse nível.”

O que está acontecendo no sul da África?

Esse período de seca começou no fim de janeiro. Em vez de receber as chuvas sazonais de sempre — que garantem água para as lavouras, enchem as fontes e mantêm as usinas hidrelétricas funcionando —, países de toda a região estão registrando o fevereiro mais seco em pelo menos 40 anos, segundo pesquisador*s do Climate Hazards Center, da Universidade da Califórnia em Santa Barbara.

Períodos secos sempre aconteceram de tempos em tempos na região, mas especialistas dizem que a mudança climática causada pela ação humana aumentou a gravidade das condições de seca nas últimas décadas. O El Niño do último ano também é parcialmente responsável pelo atraso das chuvas nesta temporada.

“Mudança virou o nosso novo normal. No sul da África, a gente vê água de menos; mas, em partes do Chifre da África, vemos água demais. Se a La Niña entrar em cena, talvez a gente veja água demais mais para o fim deste ano”, disse Skoczylas. “Isso deixa bem claro por que a gente passou de chamar de aquecimento global para chamar de mudança climática.”

Esse padrão climático natural acontece a cada 3 a 5 anos e é marcado por águas mais quentes e chuvas abaixo da média. Ele também tem sido associado a chuvas persistentes no hemisfério sul. Enquanto partes do Brasil enfrentam enchentes mortais que deslocaram centenas de milhares de pessoas, a redução das fontes de água está secando comunidades rurais e pequenas propriedades agrícolas na Zâmbia.

De acordo com especialistas da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA (NOAA), a mudança climática deve continuar alterando os padrões do clima, deixando os ciclos de El Niño ainda mais intensos e colocando as comunidades nas regiões afetadas em risco maior.

“Mesmo que o [El Niño] esteja terminando em algumas semanas, os impactos estão só começando a aparecer”, disse Skoczylas ao Global Citizen.

Para agricultor*s da Zâmbia e do Zimbábue, as colheitas ruins de agora vão significar ainda menos comida nos próximos meses, ameaçando os sistemas agrícolas que esses países vêm construindo ao longo dos anos.

A seca também piora outros problemas na região, deixando evidente o tamanho real da necessidade.

A Zâmbia, por exemplo, acabou de sair de uma batalha contra o pior surto de cólera em décadas, com mais de 22 mil casos registrados e 719 mortes no momento desta publicação. Com menos acesso a água segura, pessoas em toda a região podem começar a recorrer a fontes de água contaminadas, aumentando o risco de transmissão de doenças diarreicas e transmitidas por vetores.

Além disso, as condições secas atuais têm potencial para mudar drasticamente a vida de mulheres e meninas em todo o sul da África. Como muitas vezes são elas que caminham longas distâncias para buscar água limpa para suas famílias, mulheres e meninas correm mais risco de sofrer violência de gênero durante esses trajetos. Meninas, em especial, podem ser tiradas da escola para ajudar a família a conseguir comida e água, perdendo oportunidades importantes de estudo.

Como a seca está impactando os índices de fome?

As condições atuais de seca estão tendo um impacto profundo na segurança alimentar no sul da África — uma região que já registra algumas das maiores taxas de desnutrição do mundo.

Segundo o Programa Mundial de Alimentos, 48% da população da Zâmbia não consegue atingir a necessidade mínima de calorias; no Zimbábue e no Malaui, mais de 3,8 milhões e 5,4 milhões de pessoas são consideradas em insegurança alimentar, respectivamente.

Muitos países do sul da África são importantes para o comércio entre regiões, fornecendo culturas básicas — como milho, mandioca, sorgo e arroz — para o resto do continente. Para você ter uma ideia, mais de 50% da população da Zâmbia, do Zimbábue e do Malaui trabalha no setor agrícola e depende de padrões climáticos estáveis para sustentar sua renda.

“Agricultor*s estão literalmente na linha de frente da crise climática. A existência inteira delas — seus meios de vida — está passando por muitas mudanças”, disse Skoczylas ao Global Citizen. “Se você é agricultor, conseguir prever o clima faz toda a diferença para planejar quando plantar e quando colher, mas a mudança climática está tornando isso bem mais difícil.”

“Nesta região, boa parte da agricultura depende da chuva, então eles não usam sistemas de irrigação”, acrescentou Skoczylas. “Quando a chuva para, vira crise.”

As chuvas limitadas desta temporada causaram quebra de safra em grande parte da região. O milho, em especial, é a principal fonte de carboidrato consumida na Zâmbia; até o fim de fevereiro, mais de 1 milhão de hectares de lavouras de milho já tinham sido destruídos no centro e no sul do país por causa da seca.

No Zimbábue, as colheitas de milho caíram 70% em relação à temporada passada, fazendo com que pelo menos 2,7 milhões de pessoas precisem de assistência alimentar constante nos próximos meses.

Com a mudança climática, é esperado que padrões de clima desregulados se tornem mais comuns, deixando as colheitas mais instáveis e afetando as fontes de alimento em toda a África. Isso é especialmente relevante para comunidades pastoris, já que pastagens queimadas e a redução das safras têm dificultado cuidar de

gado.

Atualmente, já foram registradas mais de 9.000 mortes de gado relacionadas à seca no Zimbábue, e outros 1,4 milhão de animais correm risco de morrer.

À medida que aumenta o risco de emergências ligadas ao clima, organizações como o WFP estão fazendo parcerias com os países que estão sendo mais atingidos pelas mudanças climáticas. Para apoiar os esforços de nutrição, uma grande parte do foco está em levar tecnologias de agricultura adaptativa a pequenos produtores e agricultores de subsistência.

“A mudança para a agricultura inteligente para o clima é muito importante. Usar irrigação, gotejamento de baixo consumo de água e energia solar vai ajudar os agricultores a evitar sistemas caros ou movidos a diesel, que emitem carbono”, disse Skoczylas ao Global Citizen. “Mesmo com a pressão do clima, a combinação certa de estratégias pode ajudar as pessoas a se adaptarem.”

Agora, porém, o WFP e outras organizações internacionais estão focados em estabilizar a região para evitar que as taxas de fome disparem — por exemplo, com doações de alimentos e transferências de dinheiro para agricultores afetados.

“Com a perda da colheita, a gente entra numa fase de emergência. Os países responsáveis por produzir alimentos para a região não têm comida suficiente, e a perda dos meios de subsistência vai impedir que as pessoas comprem comida”, afirmou Skoczylas. “Os efeitos da ajuda emergencial são extremamente importantes neste momento.”

O que os Global Citizens podem fazer?

As condições anormalmente secas no sul da África devem continuar até junho, quando se espera que o El Niño faça a transição para um período de clima neutro. Mas o fim desse padrão de tempo seco não significa o fim da insegurança alimentar e da fome que ele causou. Como as colheitas foram menores, os impactos completos da seca ainda vão ser sentidos nos próximos meses.

Para ajudar mais de 24 milhões de pessoas que enfrentam fome extrema e possível inanição, o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (UNOCHA) lançou um apelo relâmpago por causa da seca para as regiões afetadas. As doações vão fornecer assistência que salva vidas, na forma de ajuda alimentar e transferências de dinheiro, além de apoiar a construção de poços perfurados movidos a energia solar para garantir água potável para pessoas e para o gado.

Entre em ação com o Global Citizen pedindo para os seus representantes do governo doarem para o apelo relâmpago da ONU hoje.

Global Citizen Explains

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Por Jaxx Artz