O primeiro choro de um bebê deve marcar o início de uma vida. Mas, para milhões de famílias em todo o mundo, os primeiros dias são marcados pelo medo, pela incerteza e pela dor.

O primeiro mês de vida — especialmente a primeira semana — continua sendo o período mais perigoso que um ser humano pode enfrentar. Apesar de décadas de avanços na saúde global, as mortes de recém-nascidos ainda representam uma das crises mais negligenciadas do mundo.

Em 2023, cerca de 2,3 milhões de bebês morreram no primeiro mêsde vida. Isso significa que quase metade de todas as mortes de crianças menores de cinco anos acontece antes mesmo de o bebê completar 28 dias de vida. A maioria dessas mortes pode ser evitada.

Os bebês morrem em decorrência de complicações relacionadas ao nascimento prematuro, infecções, dificuldades respiratórias durante o parto e outras condições que, muitas vezes, poderiam ser tratadas com atendimento médico no momento certo.

Em muitos lugares, a diferença entre a vida e a morte depende de a mãe ter acesso a profissionais de saúde qualificados, alimentação adequada durante a gravidez e um local seguro para dar à luz.

Essa tragédia também é profundamente desigual.

Um bebê que nasce na África Subsaariana tem muito mais chance de morrer antes de completar 5 anos do que um bebê nascido nas regiões mais ricas do mundo. A pobreza, os conflitos, a fragilidade dos sistemas de saúde e o acesso limitado aos cuidados maternos continuam determinando quem sobrevive e quem não.

Ainda assim, as soluções não são um mistério nem exigem investimentos impossíveis.

Por que os primeiros 28 dias são tão importantes?

Os recém-nascidos são extremamente vulneráveis. Seu sistema imunológico ainda está em desenvolvimento, seus pequenos corpos têm dificuldade para regular a temperatura e complicações durante o parto podem rapidamente se tornar fatais sem atendimento imediato.

Os riscos começam antes mesmo do parto.

Uma gestante que não recebe alimentação adequada durante a gravidez enfrenta um risco maior de complicações, como anemia, parto obstruído ou nascimento prematuro. A falta de acompanhamento pré-natal também faz com que condições como pressão alta, infecções ou sofrimento fetal passem despercebidas até que seja tarde demais.

Em seguida, vem o parto — um dos momentos mais perigosos para a mãe e para o bebê.

A hemorragia pós-parto, ou sangramento intenso após o nascimento, continua sendo uma das principais causas de mortalidade materna no mundo. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), é responsável por cerca de 27% das mortes maternas em todo o planeta. 

Quando mães morrem ou enfrentam complicações graves durante o parto, as chances de sobrevivência dos recém-nascidos também diminuem drasticamente. A saúde da mãe e a do bebê são inseparáveis.

É por isso que especialistas em saúde têm enfatizado cada vez mais a importância da chamada continuidade do cuidadopara mães e recém-nascidos, reconhecendo que a sobrevivência do bebê está diretamente ligada aos cuidados recebidos pela mãe antes, durante e após o parto.

Quando mulheres têm acesso a consultas regulares de pré-natal, profissionais qualificados durante o parto, atendimento obstétrico de emergência e acompanhamento pós-parto, as chances de os bebês sobreviverem às primeiras semanas de vida aumentam significativamente.

Dar à luz em uma unidade de saúde, como uma clínica ou hospital preparado para atender emergências, é um fator decisivo para aumentar as chances de sobrevivência. Até mesmo medidas simples, como oferecer apoio imediato à amamentação, prevenir infecções e manter a temperatura corporal do recém-nascido estável, podem reduzir drasticamente a mortalidade.

O poder do Método Canguru

Uma das intervenções mais eficazes para salvar vidas também é uma das mais simples.

O Método Canguru consiste em manter o recém-nascido — especialmente bebês prematuros ou com baixo peso ao nascer — em contato prolongado pele a pele junto ao peito de um dos pais ou responsáveis. Essa prática ajuda a regular a temperatura corporal do bebê, estabiliza a respiração e os batimentos cardíacos e favorece a amamentação.

A OMS descreve o Método Cangurucomo uma intervenção fundamental para aumentar a sobrevivência de bebês prematuros e com baixo peso ao nascer.

Pesquisas mostram que bebês que recebem o método canguru têm resultados de sobrevivência significativamente melhoresdo que aqueles que recebem apenas os cuidados convencionais com incubadoras, especialmente em contextos com poucos recursos.

Em muitos hospitais de países de baixa renda, incubadoras são escassas ou funcionam de forma irregular devido à falta de energia elétrica ou de equipamentos. O Método Canguru oferece uma alternativa de baixo custo e altamente eficaz, permitindo que pais e responsáveis participem ativamente da sobrevivência do bebê.

E os benefícios podem durar muito além dos primeiros meses de vida.

Estudos de longo prazo associam o Método Cangurua um melhor desenvolvimento cognitivo, redução do estresse e fortalecimento do vínculo afetivo entre pais e filhos.

Para famílias que vivem em locais com sistemas de saúde frágeis, essa prática pode representar a diferença entre a perda e a esperança.

O progresso é possível, mas desigual

O mundo alcançou avanços importantes na redução da mortalidade infantil como um todo. Desde 1990, o número de mortes de crianças menores de cinco anos caiu drasticamente. Segundo o Grupo Interagências das Nações Unidas para a Estimativa da Mortalidade Infantil, as mortes de menores de 5 anos caíram de 12,8 milhões em 1990 para 4,8 milhões em 2023

No entanto, o avanço na sobrevivência de recém-nascidos tem sido mais lento. Hoje, as mortes neonatais representam quase metade de todas as mortesde crianças menores de cinco anos, refletindo uma redução mais lenta na mortalidade durante o primeiro mês de vida.

Reduzir a mortalidade neonatal é mais difícil porque as mortes de recém-nascidos geralmente exigem cuidados mais especializados do que as doenças que afetam crianças mais velhas. Enquanto a prevenção de pneumonia ou diarreia em crianças pequenas pode depender de vacinas, saneamento básico e boa nutrição, salvar recém-nascidos costuma exigir assistência qualificada durante o parto, equipamentos neonatais, profissionais de enfermagem capacitados e hospitais preparados para cuidar de bebês prematuros ou gravemente doentes.

A falta de financiamento continua sendo um dos principais obstáculos.

Muitos dos países com as maiores taxas de mortalidade neonatal também enfrentam falta de parteiras, maternidades superlotadas, sistemas de encaminhamento frágeis e infraestrutura de saúde insuficientemente financiada. Conflitos e desastres ligados ao climaaumentam ainda mais a pressão sobre os serviços de saúde materna e neonatal.

As consequências são devastadoras.

Cada morte de um recém-nascido representa uma família devastada antes mesmo de a vida realmente começar. Pais deixam hospitais carregando mantas vazias em vez de seus bebês. Mães enfrentam o luto enquanto ainda se recuperam do parto.

E, ainda assim, muitas dessas perdas poderiam ser evitadas com investimentos que o mundo já sabe como fazer.

Uma história de sobrevivência que ainda podemos mudar

O primeiro mês de vida não deveria ser uma zona de perigo global.

É preciso priorizar intervenções práticas capazes de salvar a vida de recém-nascidos: atendimento pré-natal de qualidade, apoio à nutrição materna, profissionais de saúde qualificados, serviços obstétricos de emergência, vacinação, condições adequadas de higiene e incentivo precoce à amamentação.

Essas não são inovações futuristas. São soluções comprovadas e plenamente possíveis de serem implementadas.

O verdadeiro desafio é a vontade política.

Governos, doadores e instituições internacionais precisam tratar a saúde materna e neonatal não como uma questão de nicho, mas como um dos indicadores mais claros de que uma sociedade protege as pessoas mais vulneráveis.

Porque todo bebê merece mais do que apenas a chance de nascer.

Merece a chance de sobreviver.

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Por Mel Ndlovu