Aos 27 anos, Salvino Oliveira foi de camelô na Cidade de Deus a vereador liderando a reforma da educação no Rio. Isso depois de ter criado seu primeiro projeto social aos 15 anos: garantindo reforço escolar gratuito para crianças pobres. Pelo seu trabalho em tornar a educação mais acessível, Oliveira foi reconhecido como Laureado do Young Activist Summit 2025. Virou ativista em 2018 e, num Brasil onde o espaço cívico estava obstruído, foi avisado dos perigos. Mesmo assim, persistiu. Aqui, Oliveira conta como a educação transformou sua vida e por que está comprometido em tornar essa transformação acessível a cada jovem das favelas do Brasil.
Meu nome é Salvino Oliveira, e eu sou um pouco de tudo que eu fui.
Digo isso porque minha história começa numa casa minúscula na Cidade de Deus. Lá em casa, éramos 23 pessoas morando com apenas um banheiro. A gente era extremamente pobre, dividindo cama, espaço, comida e sonhos. Aos 13 anos, comecei a trabalhar pra ajudar minha família a sobreviver: vendi água no sinal, doce no ônibus, fui camelô, estufador, ajudante de pedreiro — qualquer coisa honesta que pudesse colocar comida na mesa.
Mas a Cidade de Deus é mais que pobreza. É o bairro do Rio com mais praças públicas, o que faz dele um lugar natural de cultura, lazer e encontro comunitário. É o berço do funk carioca — a trilha sonora da resistência e da alegria da favela. É também casa de atletas olímpicos e artistas. Esses espaços públicos e essa riqueza cultural moldaram quem eu me tornei, os amigos que fiz, meus primeiros amores, as coisas em que acredito.
Aí eu tive sorte. Fui sorteado pra estudar no Colégio Pedro II. Aquela educação mudou tudo. Abriu uma porta que parecia trancada pra sempre pra alguém com a minha origem. Aos 15 anos, mesmo trabalhando e vivendo com a violência armada ao meu redor, eu entendi que se esse acesso tinha chegado até mim, eu tinha a responsabilidade de devolver isso de alguma forma.

Aos 15 anos, criei meu primeiro projeto social, reforço escolar gratuito para crianças da Cidade de Deus.
Quando entrei na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) para estudar Administração Pública, aquele projeto social cresceu e virou o AfroEducando (depois renomeado Mais Nós), um cursinho comunitário preparatório para vestibular. Em um ano, a gente tinha 22 unidades espalhadas pela região metropolitana do Rio, tudo voluntário, ajudando a primeira geração de jovens negros de favela a acessar o ensino superior.
Quando o "mosquitinho do social" morde a gente, já era, não tem volta — e os projetos continuaram. Cofundei o Projeto Manivela para treinar lideranças comunitárias a lidar com o poder público e transformar demandas em políticas. Depois veio o PerifaConnection, uma plataforma de mídia onde jovens de favelas do Brasil inteiro escrevem colunas em jornais nacionais sobre política, economia, cultura, clima e direitos humanos, disputando narrativas sobre nossas comunidades. A ideia era simples e radical: nós nos recusamos a deixar outras pessoas contarem nossa história por nós. A grande mídia sempre retratou a favela pela lente do crime e da pobreza. Hoje, a juventude de favela ocupa espaço editorial na mídia nacional, mudando como o Brasil enxerga suas periferias.
Virei ativista mesmo em 2018, durante a intervenção federal na segurança pública do Rio. Trabalhando no Observatório de Segurança Pública, vi de perto como as políticas tratavam as favelas como zonas de guerra. Conforme eu ficava mais visível na comunidade, amigos me avisavam: "Cuidado, você é ativista agora. Isso pode te colocar em risco". Foi aí que entendi que lutar por educação e direitos no Rio significa desafiar estruturas de poder que envolvem política, dinheiro e crime organizado, que muitas vezes operam nesses territórios disputados.
A pandemia mudou tudo.
Em março de 2020, a Cidade de Deus se tornou a primeira favela do Rio a registrar um caso confirmado de COVID. Todo mundo previu uma catástrofe. O que aconteceu foi extraordinário: as lideranças comunitárias organizaram uma rede de solidariedade massiva — doando água, comida e informação pra mais de 30 mil famílias, provando que a favela cuida dos seus quando o Estado falha.
Mas esse também foi um momento de revolta política. O ex-presidente Jair Bolsonaro negava a gravidade da pandemia. Nosso governador falava publicamente em dar "tiro na cabecinha" e disse que queria jogar uma bomba na Cidade de Deus. Nosso prefeito estava omisso. Quando mais precisávamos de política pública, enfrentamos um triplo abandono. Foi quando decidi que não podia ficar só na sociedade civil. Era hora de disputar poder dentro do próprio Estado.
Eu não tinha conexões políticas nem herança, então procurei o prefeito Eduardo Paes com projetos concretos. Ele acreditou no meu trabalho e me convidou para ser o primeiro Secretário de Juventude do Rio. Assumi o cargo aos 23 anos como o secretário mais jovem no alto escalão do governo municipal. Ao longo de quatro anos, minha equipe impactou quase 300.000 jovens e ajudou a reduzir o desemprego juvenil em 16 pontos percentuais numa cidade de 6,7 milhões de pessoas — mostrando como políticas públicas bem desenhadas podem mudar vidas em escala.
Esse trabalho me levou à Câmara Municipal. Fui eleito na minha primeira eleição com mais de 27 mil votos, mais de 90% deles vindos das favelas. Hoje, presido a Comissão de Educação com o mesmo compromisso: usar as instituições públicas pra abrir portas que sempre estiveram fechadas pra jovens como eu.

O sistema precisa de mudança radical.
Por causa da reforma do ensino médio de 2017, as escolas devem oferecer pelo menos dois itinerários formativos de cinco opções possíveis — por exemplo, ciências, humanas, formação técnica, entre outras. Muitas escolas não oferecem e não podem oferecer todos os itinerários. Mais de 70% dos municípios do Brasil têm apenas uma escola de ensino médio. Isso significa que milhares de jovens em cidades pequenas nem têm o direito de sonhar com certas carreiras porque o itinerário que precisam simplesmente não é oferecido na escola local.
Talento, todo mundo tem. Oportunidade não. É isso que precisa mudar.
Em vez de debater pânicos morais fabricados por guerras culturais, como a existência de banheiros unissex, a gente devia discutir financiamento justo pra educação básica, construção de escolas, ensino profissionalizante de qualidade e salários competitivos para os professores. Pra mim, a escola é um tempo inviolável. Quando o jovem cruza aquele portão, ele não devia se preocupar com fome, nem com bala perdida de operação policial ou do tráfico, nem com conta de luz atrasada. Ele devia apenas aprender — e isso exige investimento público pesado e sustentado.
Minha luta pela educação é inseparável de combater o racismo e exigir justiça climática.
No Brasil, onde pretos e pardos são 56% da população, mas continuam desproporcionalmente pobres devido ao racismo estrutural, são as populações mais negras e periféricas que mais sofrem com a desigualdade climática. Isso inclui enchentes destruindo casas nas favelas, ondas de calor mortais, falta de saneamento básico e desastres ambientais. Os 10% mais pobres são majoritariamente negros, vivendo em periferias com acesso mínimo a escolas de qualidade, saúde e trabalho digno. Isso não é coincidência: é o resultado direto de um país que foi o último das Américas a abolir a escravidão e ainda não enfrentou sua dívida histórica.
Esse trabalho tem um custo.
Política é poder e dinheiro. Qualquer movimento que ameace as estruturas estabelecidas causa problemas. Já fui ameaçado, proibido de trabalhar em certas áreas controladas por grupos criminosos e agredido fisicamente durante a eleição. Hoje ando de carro blindado e tenho que morar num condomínio fechado com segurança 24 horas, ainda na divisa com a Cidade de Deus.
Não romantizo isso, nem quero ser mártir. Tomo esses cuidados porque acredito que minha vida, e a vida de outras lideranças de favela, tem valor — e porque essa luta é coletiva. Ainda assim, nada disso me fez pensar em desistir. Meu propósito é maior que qualquer ameaça.
A esperança vive em redes e novas gerações.

Quando fui reconhecido pelo Young Activist Summit em Genebra, eu chorei — não porque era sobre mim, mas porque entendi aquele prêmio como um reconhecimento do que estamos construindo juntos nas favelas do Rio. Ser visto por uma plataforma global, conectar com jovens ativistas de outros países, inspirar novos voluntários — tudo isso reforça minha esperança.
O que me dá mais esperança é a nova geração. Ao contrário dos estereótipos que dizem que "essa geração não quer nada", eu vejo jovens profundamente engajados, preocupados com o planeta, saúde mental e reforma sistêmica. Já trabalhei na sociedade civil, no Executivo e agora no Legislativo. A mudança real não é esperar por um "salvador" — é incidir nas instituições, ocupar conselhos, pressionar ministérios e nunca desistir da participação política.
Se eu pudesse reestruturar o sistema educacional do Brasil hoje...
Eu aumentaria o financiamento para o ensino fundamental e médio, garantiria que todos os jovens tivessem acesso à educação de qualidade e asseguraria que as escolas oferecessem tanto uma formação acadêmica forte quanto preparação profissional relevante. Quero um país onde nenhum jovem tenha que escolher entre seu sonho e a comida; onde o talento não seja enterrado pela falta de oportunidade.
Eu sonho que em alguns anos a gente possa olhar pra trás e ver que as políticas que estamos construindo hoje ajudaram a formar a primeira geração de jovens negros, periféricos e de favela liderando a tomada de decisão em universidades, empresas, parlamentos e espaços globais.
Talento, todo mundo tem. Oportunidade não. É isso que precisa mudar. E vai mudar se continuarmos acreditando, construindo redes de solidariedade e apoiando uns ao outros através de fronteiras e lutas. A favela está mostrando o caminho. Só precisamos que o mundo preste atenção e caminhe com a gente.
Este artigo, narrado a Gabriel Siqueira, foi levemente editado para clareza.
A série In My Own Words 2025-2026 (Nas Minhas Próprias Palavras) faz parte do conteúdo financiado por subsídios da Global Citizen.