De promessas nacionais bilionárias a iniciativas globais de vários bilhões, grandes quantias foram comprometidas para proteger a Amazônia. Ainda assim, com frequência, pouco do financiamento internacional acaba chegando às organizações locais que estão realizando o trabalho no território.
Em toda a região, cooperativas, grupos comunitários, empreendimentos liderados por povos indígenas e pequenos negócios estão restaurando terras degradadas e construindo meios de vida sustentáveis. Ainda assim, muitos continuam excluídos do financiamento tradicional por causa de processos de candidatura complexos, exigências rígidas e sistemas desenhados para instituições muito maiores.
O Fundo Flora foi criado para mudar isso.
Anunciado pela primeira vez no Global Citizen Festival: Amazônia, o fundo foi criado para colocar financiamento flexível diretamente nas mãos de líderes locais da restauração. Agora, ele está passando da promessa à prática, com sua primeira turma de projetos selecionada e o financiamento começando a chegar.
O Compromisso: O Que Foi Anunciado
Em 1º de novembro de 2025, aconteceu o Global Citizen Festival: Amazônia, em Belém, Brasil, o primeiro festival de música da Global Citizen na América Latina e a culminação da campanha Protect the Amazon, realizada ao longo de um ano. A campanha garantiu mais de US$ 1 bilhão em compromissos para proteger a Amazônia e as comunidades que a chamam de lar, impulsionada por 4,4 milhões de ações de Global Citizens ao redor do mundo.
Entre os compromissos anunciados naquela noite estava o lançamento do Fundo Flora, criado pelo WRI Brasil e gerido em parceria com a Sitawi Finanças do Bem.
O Fundo Flora está construindo um novo modelo de financiamento para restauração — um modelo que identifica, seleciona, financia e monitora organizações lideradas localmente que trabalham para restaurar fazendas e florestas degradadas. Seu objetivo é direcionar US$ 10 milhões a líderes da restauração no estado do Pará até o fim de 2026, com US$ 4,9 milhões já garantidos no lançamento por parceiros, incluindo o Bezos Earth Fund, a The Coca-Cola Foundation e a AKO Foundation.
Por Que Organizações Locais?
A abordagem do Fundo Flora está fundamentada em evidências sobre o que impulsiona da melhor forma uma restauração eficaz: liderança local.
Organizações enraizadas nas comunidades que atendem podem ser muito mais eficazes do que suas contrapartes não locais. Isso porque elas entendem a terra, os ecossistemas e as dinâmicas sociais necessárias para gerar resultados duradouros melhor do que ninguém. Ainda assim, essas organizações muitas vezes recebem a menor parcela do financiamento disponível, desacelerando o progresso.
O fundo prioriza organizações lideradas por Povos Indígenas, comunidades afrodescendentes, mulheres e jovens, grupos que com mais frequência são excluídos do financiamento tradicional, apesar de estarem na linha de frente dos esforços de restauração. Ele as conecta com doações e empréstimos de baixo juro que variam de US$ 30 mil a US$ 500 mil, além de suporte técnico e uma rede de pares.
O fundo está focado no estado do Pará, onde o anúncio foi feito e que se comprometeu a restaurar 5,6 milhões de hectares de vegetação nativa até 2030, uma meta que depende do trabalho com parceiros locais fortes.
O modelo se baseia no histórico do WRI com o TerraFund, que já conectou US$ 60 milhões a mais de 200 organizações locais na África, Índia e América Latina. No Brasil, a implementação conta com o apoio da Sitawi Finanças do Bem, que já apoiou mais de 3 mil iniciativas.
E Agora? A Primeira Turma Foi Selecionada
A primeira chamada de propostas do Fundo Flora foi lançada em junho de 2025, identificando uma rede de organizações com forte enraizamento local em todo o estado do Pará. Após um rigoroso processo de seleção, o fundo agora escolheu sua primeira turma.
Dez projetos — mobilizando 26 cooperativas, associações e empreendimentos — foram selecionados para investimento. Juntos, eles representam um compromisso de US$ 3,4 milhões ao longo de seis anos. Esses projetos devem restaurar mais de 1.500 hectares de terras degradadas, regenerar mais de 1 milhão de árvores, criar mais de 210 empregos e beneficiar mais de 4 mil pessoas.
A turma reflete a diversidade de abordagens necessárias para restaurar a Amazônia em escala. Alguns projetos focam em regeneração natural assistida, protegendo florestas de maior degradação. Outros estão construindo sistemas agroflorestais ricos em espécies nativas, enquanto outros fortalecem redes de coleta e distribuição de sementes de plantas raras. Muitos também estão conectando a restauração diretamente à oportunidade econômica. Sessenta por cento das organizações apoiadas atuam em cadeias de valor da bioeconomia, agregando valor a cultivos nativos como castanha-do-pará, açaí, cacau, andiroba e cupuaçu, demonstrando que a proteção da floresta e a geração de renda podem caminhar juntas.
Outras quatro organizações foram selecionadas para um programa de preparação para investimento, ajudando-as a fortalecer sua capacidade financeira e operacional e a se preparar para futuras rodadas de financiamento.
Responsabilização Incorporada
O modelo do Fundo Flora foi desenhado para garantir transparência e impacto mensurável. Os projetos são monitorados ao longo de seis anos usando a estrutura do WRI, que combina dados de campo com análise por satélite apoiada por IA. Em parceria com a Meta, o fundo está adaptando um modelo capaz de contar árvores individuais a partir do espaço já dois anos após o plantio, melhorando drasticamente a escala, o custo e a precisão da verificação.
Isso é crucial porque o financiamento é baseado em desempenho: os pagamentos só são liberados quando marcos acordados são atingidos. Essa abordagem não apenas garante responsabilização, como também ajuda a gerar dados confiáveis que as organizações locais podem usar para atrair investimento adicional.
Uma Segunda Chamada e uma Visão Maior
Com sua primeira turma em andamento, o Fundo Flora abriu uma segunda chamada de propostas focada em projetos de restauração de alta qualidade e negócios rentáveis de bioeconomia em todo o Pará. O objetivo é apoiar modelos em que as florestas permaneçam ecologicamente saudáveis e economicamente viáveis — fortalecendo cadeias de valor, criando empregos e construindo resiliência climática.
Olhando para o futuro, o Fundo Flora pretende conectar mais de US$ 10 milhões a 60 líderes locais, restaurar mais de 20 mil hectares e beneficiar mais de 10 mil pessoas. Mas sua ambição mais ampla é ainda maior. O Fundo Flora está trabalhando para provar que investir em liderança local é a maneira mais eficaz de ampliar a restauração — e de garantir que o financiamento chegue às comunidades mais bem posicionadas para gerar impacto duradouro.