Nascida e criada em um vilarejo pequeno na Eslováquia, com cerca de 800 habitantes, Diana Virgovicova cresceu imaginando como a tecnologia poderia ajudar a resolver alguns dos maiores desafios do mundo. Quando tinha 12 anos, Virgovicova começou a pesquisar o impacto do aquecimento global para um trabalho escolar.
Aos 14, depois de receber um diagnóstico médico que mudou sua vida e que ela acredita que pode ter ligação com fatores ambientais, ela e a mãe, mãe solo e professora do ensino fundamental, embarcaram em uma viagem de mochilão de um mês pela Ásia, com pouquíssimo dinheiro.
Virgovicova com mulheres que conheceu num trem local na Índia, 2015, em mochilão pela Ásia. Imagem: cortesia de Diana Virgovicova
Foi lá que Virgovicova viu de perto o impacto da água poluída nas comunidades, principalmente sobre mulheres e meninas, e em especial na saúde menstrual delas.
Quando voltou para a Eslováquia, Virgovicova estava decidida a fazer o que estivesse ao alcance dela para ajudar. Ela procurou um professor que trabalhava com água e aprendeu sobre química quântica e atividade fotocatalítica, um processo em que a luz (como a do sol ou a UV) é usada para ativar um catalisador ou material(is).
Com apenas 17 anos, Virgovicova fez sua primeira descoberta científica: usando química quântica, ela projetou uma nova molécula que utiliza a luz do sol para decompor poluentes nocivos na água, deixando-a mais segura para beber. Essa descoberta rendeu a ela um Diploma de Excelência concedido pela Família Real Sueca.
Virgovicova recebendo o Diploma de Excelência de Victoria, Princesa Herdeira da Suécia, na World Water Week, 2019. Imagem: cortesia de Diana Virgovicova
Pouco depois, Virgovicova recebeu uma bolsa integral para a Universidade de Toronto. Foi lá e por meio de um programa de fellowship que ela conheceu os cofundadores Kerem Topal Ismail Oglou e Shirley Zhong. Juntos, eles fundaram a Xatoms (pronuncia-se X-Atoms), uma empresa de tecnologia da água que usa inteligência artificial e química quântica para descobrir novos materiais capazes de limpar algumas das águas mais poluídas do mundo por meio de um processo fotocatalítico.
Hoje, aos 24 anos, Virgovicova é a vencedora do Global Citizen Prize: Cisco Youth Leadership Award (CYLA) deste ano, que reconhece jovens líderes que impulsionam soluções inovadoras para desafios globais.
“O trabalho de Diana Virgovicova com a Xatoms aproveita a IA e a química quântica para enfrentar um dos maiores desafios do mundo: o acesso à água limpa”, compartilha Fran Katsoudas, Vice-Presidente Executiva e Chief People, Policy & Purpose Officer da Cisco. “Na Cisco, acreditamos que a tecnologia é uma força de mudança com propósito e a liderança de Virgovicova traz uma inovação que não só purifica a água, como também alivia o peso do dia a dia de milhões de pessoas, especialmente mulheres e meninas.”
Dois Bilhões Ainda Sem Acesso a Água Potável Segura
Hoje, mais de 2 bilhões de pessoas ainda não têm acesso a água potável segura — uma crise que segue afetando a saúde, a educação e as oportunidades econômicas no mundo todo.

Virgovicova acredita que os avanços mais recentes em ciência e tecnologia, incluindo os que a empresa dela está desenvolvendo podem ajudar a mudar esse cenário.
Além de buscar soluções para limpar água poluída, Virgovicova também foca em conscientizar sobre como a crise hídrica afeta de forma desproporcional mulheres e meninas, uma questão que continua guiando o trabalho dela.
“Meninas bem pequenas acabam sendo expostas à água suja e aos problemas [associados] e terminam ficando doentes. Isso tem um efeito enorme nelas e na vida delas”, contou Virgovicova em uma entrevista individual.
No mundo todo, mulheres e meninas somam 250 milhões de horas por dia, mais de 28 mil anos coletando água. Esse número é mais de três vezes maior do que o de homens e meninos.
O processo de coleta de água exige tempo e esforço físico, mas ter acesso à água limpa é indispensável por vários motivos, incluindo higiene menstrual e segurança durante a gravidez.
Também chamando atenção para as desigualdades na educação, Virgovicova disse: “o tempo coletivo que mulheres e meninas gastam todos os dias buscando água é um problemão, porque elas deixam de estudar para conseguir fazer isso.”
Criando Soluções que Fazem Diferença
Cada uma das pessoas cofundadoras da Xatoms tem uma relação pessoal com a água. Zhong não tinha acesso a água limpa onde cresceu na China; Oglou não tinha acesso a água encanada onde cresceu na Turquia; e, como já foi mencionado, Virgovicova acredita que contaminantes na água por causa de instalações industriais perto do vilarejo onde ela morava podem ter contribuído para o diagnóstico médico dela.
Então, para todo mundo, esse é um assunto bem pessoal.
Co-fundadores Oglou, Virgovicova e Zhong, no lab da Xatoms, em 2026. Imagem: Univ. de Toronto
“Embora a gente já veja muitas soluções para lidar com contaminações como a E. coli, nós [na Xatoms] estamos olhando para contaminantes bem difíceis, que vêm de fábricas”, observou Virgovicova. “Não necessariamente os que causam diarreia imediata, mas os que geram efeitos de longo prazo, como infertilidade e doenças crônicas.”
“Esse processo está ficando mais difícil”, explicou Virgovicova. “Não existe uma solução única que sirva para tudo. A gente precisa de soluções personalizadas para diferentes lugares, ambientes e usos.”
Sob a liderança de Virgovicova, a Xatoms iniciou atuações no Canadá, nos Estados Unidos, no Quênia e na África do Sul, testando e ajustando a tecnologia em condições reais. A empresa está focada em descobrir novos materiais e desenvolver soluções personalizadas capazes de purificar água de praticamente qualquer fonte.
No Canadá, a equipe trabalha com comunidades indígenas em territórios que há muito tempo vivem sob alertas de ferver a água, para remover contaminantes metálicos persistentes. Já no Quênia, eles fazem parceria com organizações para integrar materiais de purificação ativados pelo sol em quiosques de água, ampliando o acesso à água potável segura.
IA para o Bem
Hoje em dia, parece que a IA está em todo lugar… e, sem dúvida, tem muito barulho em torno disso. Mas tem gente, incluindo Virgovicova e a equipe dela que também está usando essa tecnologia para o bem.
“Muita gente tem medo de IA, e com razão… e também existem implicações de desperdício de água envolvidas”, compartilhou Virgovicova. “Mas, se a gente usar IA e quântica do jeito certo, dá para criar soluções para problemas complexos.”
“Ainda faltam alguns anos para chegar à revolução do quântico”, continuou ela. “Com a IA, dá para acelerar muito o processo. Por exemplo: antes levaria 10 anos para descobrir uma molécula, mas agora a gente consegue fazer isso em 30 dias.”
E se você já…
já chegou até aqui e já entendeu o impacto que a Virgovicova vem causando no mundo notícias assim são boas.
Impacto Duradouro
“A missão da Xatoms é limpar água poluída, e a gente quer ser referência no universo da purificação de água”, compartilhou Virgovicova. “Estamos tentando fechar a lacuna entre o uso de tecnologias novas e complexas e soluções para um problema enorme e global como a poluição da água.”
A cientista de materiais Sidrah Rana com os co-fundadores Virgovicova e Zhong, no lab da Xatoms, em 2025. Imagem: Univ. de Toronto
Hoje, Virgovicova é CEO da Xatoms e lidera uma equipe de 12 pessoas no desenvolvimento desses materiais ativados pela luz do sol, capazes de limpar a água para diferentes usos.
Mesmo dedicando incontáveis horas, noites e fins de semana para construir a Xatoms, Virgovicova segue igualmente apaixonada por fortalecer a próxima geração de empreendedores. Ela orienta jovens fundadores no mundo todo, especialmente mulheres que atuam em ciência e clima, ajudando a formar a nova geração de inovadores que enfrenta desafios globais.
“A gente quer mostrar para o mundo que, de verdade, não importa quantos anos você tem, de onde você vem ou qual é a sua condição financeira: você pode, sim, começar um negócio”, compartilhou Virgovicova.
Sobre o futuro, ela diz: “A gente não quer ser só uma empresa focada em faturar; queremos ir até esses lugares para realmente interagir com as comunidades [que estão lidando com esses desafios], entender o que dá para fazer e como a gente pode gerar impacto de verdade. É assim que vamos alcançar o sucesso.”
Mais recentemente, a Xatoms foi nomeada uma Vencedora Global do Water Resilience Challenge, do World Economic Forum o que levou Virgovicova a falar em Davos sobre o futuro da inovação em água.
“Temos orgulho de apoiar a visão da Diana e a próxima geração de empreendedores que está impulsionando o progresso rumo a um futuro mais saudável e sustentável”, afirma Katsoudas.
Virgovicova vai receber oficialmente o Global Citizen Prize: Cisco Youth Leadership Award no Global Citizen NOW: New York em 14 de maio de 2026, um momento que destaca não só o trabalho dela, mas também a urgência de soluções ousadas para a crise global da água.
Saiba mais sobre o Global Citizen Prize e sobre como você pode apoiar soluções que levam água potável e segura para comunidades no mundo todo em GlobalCitizen.org.