Quando a gente pensa nos problemas que limitam o potencial de mulheres e meninas no mundo todo, logo lembra de coisas como a negação da educação, a falta de independência ou o bloqueio ao acesso ao trabalho.
Mas, às vezes, é tão simples quanto não conseguir acessar produtos menstruais algo que muita gente acha que é garantido. Ou até não ter banheiros seguros, privados e dignos nas escolas. Ainda existe o estigma em torno da menstruação, que transforma algo super natural em motivo de vergonha e desconforto, prejudicando a confiança das meninas.
Tudo isso pode ter um impacto enorme tanto no acesso das estudantes à educação e, depois, ao trabalho, quanto na saúde mental e física delas.
“As meninas menstruam numa fase super importante da vida, numa época em que sentir confiança e saúde faz toda a diferença para que possam agarrar as oportunidades que surgem,” conta Talia Fried, gerente de políticas públicas e relações governamentais da Global Citizen e líder das campanhas de água, saneamento, higiene e saúde menstrual.
“A educação é um direito humano e essencial para as oportunidades econômicas, a saúde e a autoconfiança de qualquer menina,” completa Fried. “Ela ajuda a evitar o casamento infantil, o abuso, e apoia a menina a conquistar tudo o que quiser.”

De acordo com o Conselho Colaborativo de Fornecimento de Água e Saneamento da ONU (WSSCC) que realiza programas para garantir boa saúde menstrual, muitas mulheres e meninas na África Subsaariana compartilham a mesma realidade: “a falta de informação leva a mais estigma, discriminação e restrições na menstruação”.
"Algumas meninas nem sabem das opções seguras e higiênicas de absorventes e acabam usando materiais inseguros, o que pode gerar problemas de saúde como infecções, mau cheiro e desconforto", explica Virginia Kamowa, especialista técnica do WSSCC em gestão da higiene menstrual (MHM), para a Global Citizen.
Mas a verdade é que existem soluções para as dificuldades em cuidar da higiene menstrual.
Primeiro, os produtos menstruais precisam ser mais acessíveis para todo mundo. Segundo, eles devem ter preços justos. Terceiro, meninas e meninos precisam receber educação sobre menstruação. Quarto, as escolas precisam ter banheiros privados e seguros, com pias e locais adequados para o descarte dos resíduos assim as meninas conseguem lidar com a menstruação enquanto estudam.
Na África do Sul, como no resto do mundo, tudo isso deveria ser garantia básica de direitos humanos mas, ainda assim, muitas alunas não conseguem ir à escola durante o período menstrual ou não conseguem se concentrar nas aulas por conta da ansiedade e vergonha geradas pelo estigma.
Por isso, ativistas locais e parceiros da África do Sul pediram à Global Citizen apoio para ampliar suas campanhas de saúde menstrual. E a Global Citizen topou esse desafio.
Alunas do 7º ano recebem kits de saúde menstrual após palestra sobre menstruação numa escola em Durban.
Alunas do 7º ano saem com kits menstruais após palestra sobre menstruação em escola primária de Durban.
I. Um presidente se pronuncia
Por anos, ativistas e campanhas na África do Sul lutaram para melhorar a gestão da higiene menstrual e acabar com as dificuldades que a menstruação traz para mulheres e meninas de todo o país.
Lá em 2011, parecia que as coisas iam mudar, quando o então presidente Jacob Zuma usou seu discurso sobre o estado da nação para colocar em destaque a necessidade de todas as pessoas terem acesso a produtos menstruais.
“Levando em conta nosso foco na saúde da mulher, vamos ampliar o alcance dos direitos de saúde reprodutiva e oferecer serviços relacionados a, entre outros, anticoncepção, infecções sexualmente transmissíveis, gravidez na adolescência e absorventes para pessoas em situação de vulnerabilidade”, disse ele.

O preço dos produtos menstruais pesa bastante para quem tem baixa renda na África do Sul. O absorvente interno custa em média R$1,50 no país, o que faz com que uma mulher gaste em torno de R$16.500 (cerca de US$1.130) ao longo da vida. Um pacote com 10 absorventes custa em média R$18, ou seja, R$19.800 (cerca de US$1.370) na vida toda.
E, mesmo com algumas províncias já liderando e oferecendo absorventes gratuitos nas escolas, mais investimento do governo ajudaria ainda mais províncias a fazerem o mesmo.
Para a Dra. Okito Wedi, médica que se juntou à Global Citizen em agosto de 2018 para gerenciar políticas públicas na África do Sul, o pronunciamento de Zuma naquele discurso foi um divisor de águas na luta pelo acesso a produtos menstruais.
“Colocou a saúde menstrual na agenda e trouxe esse debate para o centro das atenções foi super importante,” diz Wedi. “Acho que todo mundo envolvido percebeu o quanto aquele momento foi marcante.”
“E foi ainda mais marcante por vir de um homem,” completa ela. “E, considerando seu papel de presidente na época, foi muito encorajador.”
Mas, apesar do marco no debate público, pouca coisa realmente mudou no governo sul-africano nos sete anos seguintes.
Mesmo com um passo importante o reconhecimento do problema por um presidente em um discurso tão importante a solução não veio.

II. A campanha ganha forma
Em 2018, nos preparativos para o Global Citizen Festival: Mandela 100 em Joanesburgo, a Global Citizen se juntou a pessoas incríveis que já vinham lutando por igualdade por meio do saneamento, para fortalecer ainda mais o movimento.
Fried trabalhou junto com ativistas para definir, com clareza, as ações concretas que o governo precisava adotar para melhorar a gestão da saúde menstrual e calcular quanto isso custaria.
Depois de semanas de conversas com parceiros e ativistas, a Global Citizen definiu quatro pedidos principais ao governo:
1. Acabar com o imposto de 15% sobre produtos menstruais na África do Sul, que encarecia absorventes e tampões... ainda mais inacessível.
2. Investir R$1,7 bilhão (US$120 milhões) para garantir que todos os alunos do 4º ao 12º ano das escolas públicas tenham acesso gratuito a absorventes higiênicos por dois anos.
3. Implementar educação de qualidade sobre higiene menstrual para meninas e meninos nas escolas.
4. Assegurar que todas as escolas tenham instalações sanitárias adequadas.
Se o governo assumisse compromissos com essas demandas centrais, isso ajudaria a aliviar o sofrimento que o período menstrual causa para tanta gente pelo país.
Cartaz ensina meninas sobre menstruação e sistema reprodutor feminino em escola de Soweto, Joanesburgo.
Cartaz educativo sobre menstruação e órgão reprodutor feminino numa escola em Soweto, Joanesburgo.
Quando Wedi entrou para o time da Global Citizen, ela começou a colaborar com Fried na campanha.
Nascida na República Democrática do Congo, Wedi mora na África do Sul há 29 anos. Antes de se juntar à Global Citizen, ela cofundou uma ONG chamada Vagina Workshop trabalhando com meninas e mulheres para educá-las sobre saúde sexual e reprodutiva.
“Um dos motivos pelos quais decidi migrar para a área de políticas públicas de saúde foi porque queria chegar à raiz das causas, principalmente no que diz respeito ao bem-estar e saúde psicossocial das mulheres”, conta ela.
A Wedi não queria só tratar as mulheres, ela queria mudar as condições que levam aos problemas de saúde que meninas e mulheres enfrentam, e que ela viu de perto como médica.
“Ver mulheres e crianças chegando com infecções e outros problemas de saúde, se expondo a riscos simplesmente porque não podiam pagar por algo tão básico e necessário quanto um absorvente realmente mexeu comigo”, ela continua.
Ao lado de parceiras como Mimi Women, a Missão da África do Sul na ONU, o WSSCC e o Menstrual Hygiene Day, a Global Citizen montou uma estratégia para fazer o governo prestar atenção, tomar atitudes, prometer mudanças e, dessa vez, realmente acompanhar o compromisso assumido.
III. Global Citizens Começam a Entrar em Ação
No dia 21 de agosto de 2018, Global Citizens começaram a levantar suas vozes em apoio à saúde menstrual na África do Sul, como parte de uma série de ações lançadas antes do Global Citizen Festival: Mandela 100, marcado para 2 de dezembro de 2018. Essas ações faziam parte do programa de recompensas da Global Citizen: as pessoas ganhavam pontos ao entrar em ação, e podiam resgatar esses pontos para concorrer a um par de ingressos para o festival.
O ano de 2018 marcou o centenário de nascimento de Nelson Mandela e foi cheio de comemorações para o ativista anti-apartheid e ex-presidente da África do Sul. O festival Mandela 100 se inspirou na dedicação de toda a vida de Mandela pela igualdade para todos, e convidou os Global Citizens a continuarem esse legado, tanto na África do Sul quanto ao redor do mundo.
Grandes artistas iam se apresentar no evento, incluindo Beyoncé e JAY-Z, Cassper Nyovest, D’Banj, Ed Sheeran, Eddie Vedder, Femi Kuti, além de Pharrell Williams e Chris Martin, entre outros.
Global Citizen Festival Mandela 100 actions are now live! @NalediPandor and #GugileNkwinti we are calling on you to stand up for women and girls in South Africa by funding menstrual health because #ItsBloodyTimehttps://t.co/yEX4wm6exHpic.twitter.com/0e64vMq0Ui
— Global Citizen Impact (@GlblCtznImpact) August 21, 2018
Para a saúde menstrual, os Global Citizens foram convidados inicialmente a enviar e-mail ao governo sul-africano, cobrando dos líderes investimentos em educação sobre higiene menstrual, produtos adequados e banheiros seguros nas escolas.
Entre os milhares de Global Citizens inspirados a participar dessa campanha estava Palesa Mokoenanyane, de 28 anos, de Joanesburgo.
Mokoenanyane já estava super envolvida na causa de garantir que pessoas por toda a África do Sul tenham períodos menstruales seguros, saudáveis e confortáveis.
Ela usava frequentemente suas redes sociais para divulgar o Lets Pad South Africa, uma organização que coleta absorventes para distribuir em escolas de comunidades de baixa renda. Além disso, ela colaborava doando absorventes em farmácias locais.
Por isso, quando ouviu falar da Global Citizen num programa de rádio, ela não pensou duas vezes: baixou o app e se registrou como uma pessoa pronta para entrar em ação. Mokoenanyane não se lembra muito do seu primeiro ciclo menstrual, mas lembra bem das palavras de sua mãe: “Você é muito sortuda por ter absorventes. Tem meninas por aí que não têm acesso a isso elas não podem nem brincar ou ir para a escola, precisam ficar em casa.”
Essas palavras ficaram marcadas na memória da Mokoenanyane.
“Foi um dos momentos mais humildes da minha vida quando percebi que estava em uma condição melhor do que outras pessoas”, diz ela. “Me chocou muito naquela idade tão jovem... Me deixou muito triste saber que alguém passava por tanto sofrimento.”
“Ficar sem ir à escola por alguns dias contribui demais para a desigualdade de gênero, porque [as meninas] não recebem o mesmo nível de educação. E tudo por não terem um simples absorvente”, completa.
I’ll bet most of us never thought we’d have to miss school opportunities or hanging with your friends just because you got your period. That happens in large parts of South Africa because many of them don’t have access so sanitary pads. That’s got to stop @GlblCtzn#ItsBloodyTime
— Gayle King (@GayleKing) November 30, 2018
Para somar às vozes que pediam mudança, a apresentadora sul-africana Bonang Matheba e Gayle King, dos Estados Unidos, também aderiram ao movimento com Matheba, que sempre defende a educação das meninas, chegando a tuitar diretamente para o presidente Cyril Ramaphosa pedindo investimentos em saúde menstrual.
Quase imediatamente, os esforços mobilizadores já mostraram resultados.
IV. O Governo Ouve
No dia 24 de outubro, o ministro das Finanças Tito Mboweni eliminou de vez o imposto sobre produtos menstruais a mudança entrou em vigor em 1º de abril de 2019 e também prometeu garantir a distribuição gratuita de absorventes nas escolas públicas para quem precisa.
“Zerar os tributos sobre esses produtos tem como foco os lares de baixa renda e devolve dignidade ao nosso povo”, explicou Mboweni ao apresentar sua política orçamentária de médio prazo.
Nossas vozes foram ouvidas! O governo da África do Sul prometeu distribuir absorventes gratuitos para meninas que precisam e acabar com o ‘imposto do absorvente’ — mas ainda há muito a fazer. Participe com o @GlblCtzn e entre em ação! https://t.co/ngFKaGhozN#GlobalCitizenpic.twitter.com/C2a4CuhQWo
— WSSCC (@WSSCCouncil) 30 de outubro de 2018
Para Wedi, assim como para várias outras organizações e pessoas envolvidas nessa questão, isso foi um avanço enorme.
“Quando retiraram o IVA, fiquei eufórica”, conta Wedi. “Foi muito empolgante, porque esse era um dos primeiros pedidos em que conseguimos ver ação. Então, foi super motivador pra gente.
“Isso ajudou a criar a energia e o ritmo que precisávamos para garantir as outras partes da campanha”, ela completa. “Foi uma implementação de política muito progressista anunciada pelo governo e nos fez sentir que era possível. Se isso aconteceu, por que não garantir absorventes gratuitos? Por que não educação sobre saúde menstrual? Por que não banheiros seguros?”
Para Fried, esse momento também mostrou claramente que “o governo estava ouvindo a gente e começando a entender de verdade que saúde menstrual é uma necessidade, não um luxo, e precisa ser prioridade.”
Assim, a mobilização continuou, alimentada pelas mudanças que já estavam acontecendo e as ações dos Global Citizens só aumentavam a cada dia.
No dia 29 de outubro, a Global Citizen lançou mais uma ação dessa vez pedindo para os Global Citizens tuitarem para o Presidente Ramaphosa e para Mboweni, agradecendo pelo apoio à saúde menstrual e ao saneamento. Também pediram para eles participarem do Global Citizen Festival: Mandela 100, em 2 de dezembro, e anunciarem planos orçamentários para distribuir absorventes gratuitos em escolas públicas sem cobrança de mensalidade, junto com uma educação de qualidade sobre saúde menstrual para meninas e meninos.
@CyrilRamaphosa Obrigada por defender a saúde menstrual. Você vai se juntar a nós no @GlblCtzn Festival Mandela 100 & se comprometer com R1,7 bilhão nos próximos dois anos para garantir absorventes gratuitos em escolas públicas do 4º ao 12º ano e educação de qualidade sobre saúde menstrual para meninas E MENINOS!
— Bonang B* Matheba (@bonang_m) 29 de novembro de 2018
No dia 29 de novembro, faltando poucos dias para o festival, a campanha conquistou mais uma vitória: o Ministro de Energia, Jeff Radebe, prometeu conversar pessoalmente com o Ministro da Saúde, Dr. Pakishe Aaron Motsoaledi, e com a Ministra da Educação Básica, Angie Motshekga, sobre o porquê de mais de 100 mil ações terem sido feitas pelos Global Citizens sobre saúde menstrual.
O apoio de Radebe, o parlamentar mais antigo do Congresso Nacional Africano e presidente do Comitê Interministerial das Celebrações do Centenário de Nelson Mandela, deu um peso enorme para a campanha.
Enquanto isso, os Global Citizens continuaram agindo, mantendo a força do movimento e reforçando a urgência de enfrentar a injustiça da má gestão da higiene menstrual.

V. Chegou o Dia do Festival
No amanhecer de 2 de dezembro em Joanesburgo, dezenas de milhares de Global Citizens começaram a chegar ao Estádio FNB para um dia incrível de música com alguns dos maiores artistas do mundo, além de anúncios de compromissos e promessas de líderes de vários países.
Mas o trabalho dos ativistas, mobilizadores e especialistas em políticas públicas ainda estava longe de terminar.
“A gente não tinha certeza se o presidente Ramaphosa realmente faria o compromisso”, conta Wedi. “Só recebemos uma confirmação de última hora sobre o que ele ia dizer, poucos minutos antes do discurso dele.
“O que a gente sabia é que haveria algum compromisso, então os sul-africanos precisavam ficar ligados”, completa.
Visão geral do Estádio FNB durante o Global Citizen Festival: Mandela 100, em 2/12/18, Joanesburgo, África do Sul.
Vista geral do Estádio FNB no Global Citizen Festival: Mandela 100, em 02/12/18, Joanesburgo, África do Sul.
Quando a equipe do Global Citizen recebeu a versão final do roteiro do discurso do presidente, o compromisso ainda não estava lá.
“Então, pouco antes do momento do presidente no palco, Mick Sheldrick [vice-presidente de políticas globais & relações governamentais e cofundador da Global Citizen] conversou com o presidente nos bastidores sobre a importância da saúde menstrual para meninas e para o sucesso e educação delas”, conta Fried. “Ele pediu para o presidente lembrar dos milhares de cidadãos que já tinham entrado em ação nessa questão e que ficariam decepcionados se não houvesse nenhum compromisso naquela noite.
“O presidente, então, começou a editar o próprio discurso no iPad dele, poucos minutos antes de ser apresentado pela Oprah Winfrey”, diz ela.
Foi nesse momento que, para fechar a noite, o presidente Cyril Ramaphosa subiu ao palco para falar aos Global Citizens que aguardavam saber qual seria o impacto de todo esse movimento.
Ramaphosa, ovacionado e aplaudido pelo público, anunciou um compromisso de R2 bilhões (US$ 139 milhões) e falou sobre a importância da saúde menstrual para estudantes e sua educação.

“Nelson Mandela nos ensinou que não são as pessoas influentes, ricas ou poderosas que fazem a história, mas sim aquelas determinadas a fazer a diferença”, declarou para a multidão.
“Ouvimos o apelo das meninas privadas do acesso à educação porque não podem bancar produtos menstruais”, continuou. “Escutamos o choro das mulheres que enfrentam abuso, violência e até a morte nas mãos de parceiros e desconhecidos.
“Sentimos a dor da comunidade LGBTI, que lida diariamente com ignorância, preconceito, discriminação e abusos”, afirmou. “Escutamos esses chamados e, juntos, vamos agir para criar uma vida melhor para todos nós.”
Ele finalizou: “Aqui, no extremo sul da África, nós também ouvimos o chamado do Global Citizen.”
Presidente Ramaphosa fala no Global Citizen Festival: Mandela 100 no Estádio FNB, em 2/12/2018, Joanesburgo.
Pres. Ramaphosa discursando no Global Citizen Festival: Mandela 100 no Estádio FNB, 2/12/18 em Joanesburgo.
Ouvir do próprio presidente, no palco do Global Citizen, que o governo sul-africano atendeu ao apelo de crianças privadas da educação por falta de gestão menstrual digna foi um momento histórico para os ativistas e mobilizadores que lutaram por isso sem parar.
“A saúde menstrual e a higiene eficaz são componentes essenciais e fundamentais para a saúde sexual e reprodutiva das adolescentes”,
disse Kamowa, do WSSCC. "Já passou da hora das meninas e mulheres serem limitadas por causa da menstruação."
E para os Global Citizens que dedicaram tempo e esforço à campanha, foi a confirmação de que suas vozes e suas ações realmente tiveram impacto.
Para Mokoenanyane, como alguém que entra em ação, foi “muito empolgante” ouvir as palavras de Ramaphosa e “saber que conseguimos falar por quem não tem voz, por quem sente vergonha de abordar esse assunto.”
VI. Comemorações! Mas o trabalho continua
Uma jovem de 18 anos ouve palestra sobre saúde menstrual e revela ter deixado a escola anos antes por isso.
Jovem de 18 anos ouve palestra sobre saúde menstrual e conta que precisou largar os estudos por esse motivo.
Ouvir Ramaphosa falar sobre o gerenciamento da higiene menstrual na África do Sul foi um grande marco na campanha mas, principalmente, definitivamente não era o fim do trabalho.
Embora o compromisso de R2 bilhões tenha sido extraordinário, o governo ainda não havia anunciado exatamente quanto desse valor seria destinado ao apoio dos estudantes no gerenciamento da higiene menstrual em todo o país.
“Eu me senti motivada com toda a campanha, com nossos parceiros inspiradores e ativistas com quem trabalhei durante toda a preparação, com os milhares e milhares de Global Citizens que fizeram suas vozes serem ouvidas, e com as falas do presidente sobre a importância da MHM e a possibilidade de financiamento para essa questão,” diz Fried.
“Mas também senti uma frustração profunda, porque ainda não estava claro se ele estava realmente pronto e disposto a se comprometer de verdade com a melhoria da saúde menstrual,” ela completa.
Então, os Global Citizens levantaram suas vozes mais uma vez, por meio de uma nova ação lançada no dia 8 de fevereiro de 2019. Desta vez, Global Citizens foram convidados a tuitar diretamente para o presidente Ramaphosa, pressionando o governo a esclarecer se iria realmente destinar um valor específico para a saúde menstrual.
No dia 20 de fevereiro, o momento tão esperado por ativistas, apoiadores e Global Citizens chegou o dia em que o governo da África do Sul lançaria seu orçamento de 2019 e revelaria o quanto ouviu o chamado dos Global Citizens e ativistas.
E o orçamento mostrou que o governo realmente separou verba específica para a saúde menstrual.

O orçamento trouxe uma alocação de R157 milhões (mais de US$11 milhões) para fornecer absorventes higiênicos para estudantes de famílias de baixa renda, mais que dobrando o valor anterior ao adicionar R79 milhões aos R78 milhões que já eram investidos no tema.
E mais: o governo também incluiu uma alocação de R2,8 bilhões (US$199 milhões) para ajudar na transição dos perigosos banheiros de fossas para banheiros seguros em 2.400 escolas.

Esses compromissos além de extremamente incentivadores para Global Citizens e ativistas que se uniram para melhorar a saúde menstrual vão transformar a vida de estudantes impactados pela falta de cuidados menstruais em toda a África do Sul.
E nada disso teria acontecido sem os e-mails, tuítes e ações dos Global Citizens mostrando ao governo sul-africano o quanto essa questão é importante para todos.
“A mobilização do Global Citizen nos ajudou a perceber que os sul-africanos queriam que déssemos prioridade à saúde menstrual,” afirmou a Ministra Radebe. “Ao analisar as prioridades do nosso orçamento de 2019, levamos isso em consideração e decidimos assumir esse compromisso.”
Na verdade, mais de 100.000 ações realizadas até agora pelos Global Citizens já geraram compromissos para a saúde menstrual que vão transformar a vida de estudantes de baixa renda em pelo menos 5.000 escolas em toda a África do Sul.
VII. Sua voz é ouvida
Para Mokoenanyane, saber que suas ações ajudaram a aliviar o sofrimento das pessoas do seu país foi superanimador.
“Sua voz é ouvida, e quanto mais pessoas entram em ação por uma causa, mais forte fica essa voz,” ela diz.
E, vendo o impacto das próprias ações, Mokoenanyane deixa um recado para quem pensa em se tornar Global Citizen.
“Uma pequena ação pode mudar completamente a vida de alguém, então eu diria: continue agindo,” ela comenta.
Para o WSSCC, as vozes levantadas na África do Sul foram essenciais para acabar com o tabu que dificulta tanto o enfrentamento do desafio do gerenciamento da higiene menstrual.
“Destacar temas cheios de tabus, como saneamento e higiene menstrual, é fundamental para alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável em todos os países,” afirma Kamowa. “Quanto mais influenciadores, autoridades e cidadãos estiverem informados, maiores são as oportunidades para agir, investir mais e romper o silêncio.”
O Global Citizen está mais que ciente da importância do ativismo e da defesa incríveis que já vinham acontecendo, impulsionando o debate sobre a saúde menstrual no país. Foram esses ativistas que procuraram o Global Citizen, explicando que essa era uma questão urgente para a campanha e estavam certos.
“Esta foi, de longe, nossa campanha de maior sucesso,” diz Wedi. “E acho que isso se deve ao fato de que as pessoas estavam superpreparadas, o clima estava certo e todo mundo queria muito ver essa mudança acontecer.”
Para Fried, são os ativistas que dedicam anos ao tema e os Global Citizens que entram em ação os “verdadeiros heróis dessa história.”
“Ativistas lutaram uma batalha incrível, difícil e superimportante para tornar a saúde menstrual uma realidade na África do Sul,” afirma ela. “Eles criaram organizações, cobraram mudanças de políticas públicas, educaram crianças e comunidades sobre o que é a MHM e como se proteger, além de atuarem junto com escolas e lideranças comunitárias para entender e resolver o problema.”
E ela completa: “Eles fizeram tanta coisa que chega a ser impressionante.”
VIII. E agora?
Para Wedi e Fried, o governo sul-africano já deu passos incríveis para enfrentar os desafios da saúde menstrual principalmente no último ano, com fim do imposto sobre absorventes e a destinação de R157 milhões para a causa.
Mas, para poder dizer que os problemas relacionados à saúde menstrual ficaram no passado na África do Sul, ainda há trabalho a ser feito...
Concluído.
Aluna caminha até a escola na cidade de Lebowakgomo, Limpopo, África do Sul.
Estudante vai a pé para escola em Lebowakgomo, província de Limpopo, África do Sul.
Global Citizens pediram que o governo assumisse compromissos ainda maiores de financiamento do que os apresentados no orçamento de 2019. A solicitação era de R850 milhões (US$60 milhões) por ano nos próximos dois anos basicamente o valor necessário para garantir que cada estudante de uma escola sem mensalidade tenha acesso adequado aos recursos de saúde menstrual.
“Existem muitas outras mulheres e meninas que precisam ser contempladas, e eu não acho que R157 milhões sejam suficientes para realmente ajudar todas que precisam desse produto básico”, comenta Wedi. “Acredito que dá para fazer mais e destinar ainda mais recursos.”
Além de mais investimento, ainda é preciso ver ações concretas do governo, além de esclarecimentos sobre como a educação sobre saúde menstrual, um elemento essencial para melhorar a saúde menstrual será financiada com os R157 milhões, e de que forma essa educação será implementada em todo o país.
“Além de garantir que os R157 milhões sejam liberados e utilizados dentro do prazo para o propósito certo, e de pressionar para que a educação sobre saúde menstrual seja oferecida a meninas e meninos nas escolas, precisamos continuar reivindicando banheiros seguros, dignos e privados, com água limpa, estrutura para lavar as mãos e gestão de resíduos nas escolas”, reforça Fried.
Mesmo assim, Wedi destaca que ativistas, organizações, defensores e a comunidade engajada de Global Citizens, que foram tão importantes nesse movimento até agora, já alcançaram algo incrível.
“Nunca vimos o governo destinar essa quantidade de dinheiro para essa questão antes”, diz ela. “É sensacional, maravilhoso. A África do Sul tem uma história incrível de pessoas se unindo e usando suas vozes coletivas para fazer acontecer.”
É justamente essa trajetória de ação cidadã e impacto coletivo que inspira Wedi a seguir na luta.
“Acho que vai ser difícil, mas vai valer a pena”, ela acrescenta. “E não devemos parar de cobrar o governo e fazer com que sejam responsabilizados.”
Para Fried, os resultados conquistados pelo esforço de tanta gente até agora servem como um lembrete de que mudanças são realmente possíveis.
“Isso me faz sentir que as portas estão abertas não só para expandir a política de saúde menstrual na África do Sul, para garantir que ela inclua educação menstrual e banheiros adequados nas escolas", ela comenta, "mas também para que outros países se inspirem na liderança da África do Sul e coloquem esse tema em destaque.”
