Falar sobre a crise climática não é fácil. O tema se tornou um dos mais populares na mídia nos últimos anos, mas discutir o assunto de forma mais ampla ainda é um desafio para muitos de nós. Talvez porque não queiramos aumentar a ansiedade climática, ou porque não queiramos pensar muito sobre o que o futuro nos reserva caso as soluções necessárias não sejam tratadas com a seriedade que exigem.
Então, como podemos nos envolver com esse tema de forma mais eficaz?
“Acreditamos que a cultura pode — e deve — desempenhar um papel central na agenda climática”, afirma Leonardo Menezes, fundador da Outra Onda Conteúdo, organização que cria e implementa experiências voltadas a aproximar o público de soluções para desafios globais. Em parceria com a agência criativa C de Cultura, a organização lançou, no ano passado, a pesquisa pioneira "Cultura e Clima – Percepções e práticas no Brasil", que entrevistou 2.074 brasileiros para entender como a cultura pode ajudar na construção de um futuro mais sustentável.
A pesquisa mostrou que 82,1% dos entrevistados estão preocupados com as mudanças climáticas, mas 11,3% têm pouco ou nenhum conhecimento sobre o tema, enquanto 50,8% afirmaram ter um conhecimento intermediário sobre o assunto.
“As mudanças climáticas são o problema de ação coletiva mais complexo da história da humanidade. Elas exigem que bilhões de pessoas, em contextos, idiomas e níveis de responsabilidade muito diferentes, mudem seus comportamentos simultaneamente, motivadas não apenas pelo medo, mas por um senso compartilhado do que o futuro pode ser. A informação ajuda. Os dados nos ajudam a entender onde estamos, mas os dados, por si só, nunca levaram uma multidão às lágrimas”, afirma Menezes.
Mas a arte, sim.
As evidências apresentadas no relatório mostram que a cultura possui um enorme poder de mobilização social, sendo capaz de informar e engajar o público sobre as mudanças climáticas de maneiras que instrumentos tradicionais de políticas públicas não conseguem reproduzir. Os participantes da pesquisa reconheceram que a cultura é uma importante fonte de informação sobre o clima (83,5%) e que ela inspira ações concretas (62,6%).
“O público não apenas consome cultura, mas também a vê como uma aliada da agenda climática. Existe uma demanda por conteúdos que conectem arte, conhecimento e ação”, afirma Menezes.
No entanto, o relatório também aponta que as políticas culturais ainda não incorporaram objetivos relacionados ao clima de forma consistente e eficaz e que empresas e festivais, apesar de seu amplo alcance, ainda demonstram um baixo nível de engajamento real com a ação climática. A infraestrutura para que a cultura desempenhe esse papel já existe. Já os mecanismos formais de apoio a esse papel ainda são limitados.
O Policy and Evidence Centre das Indústrias Criativas do Reino Unidochegou a conclusões semelhantes por outro caminho. Seu influente relatório sobre as indústrias criativas e a emergência climática concluiu que, além da responsabilidade de descarbonizar suas próprias operações, o setor criativo exerce um papel intangível, mas potencialmente decisivo: influenciar as mudanças culturais, as atitudes e os comportamentos ligados às transformações sociais necessárias para alcançar o Net Zero.
Em ambos os relatórios, fica evidente o enorme abismo entre o que a cultura poderia fazer e o que atualmente se espera dela.
O pavilhão que mudou a pergunta na COP
Durante a COP28, realizada em Dubai em 2023, Samuel Rubin, Gunjan Nanda, Kirsten Wessel e Pooja Tilvawala decidiram lançar o Entertainment + Culture Pavilion (E+C Pavillion) na Blue Zone da UNFCCC. A iniciativa buscava criar um espaço dedicado e formal para os setores criativo e cultural dentro das negociações climáticas oficiais. Ao longo de 12 dias, o pavilhão recebeu mais de 100 eventos realizados em parceria com mais de 150 organizações.
A iniciativa ajudou a evidenciar que as conferências climáticas precisam não apenas de metas ambiciosas para enfrentar a crise climática, mas também de imaginação para transformar essas metas em realidade. “Respeitamos o fato de que formuladores de políticas públicas e cientistas passaram décadas construindo argumentos racionais em favor da ação climática. No entanto, sem incluir as artes como parte da agenda climática, haverá uma enorme lacuna entre compromisso e transformação”, afirma Rubin.
Para Rubin e seus colegas, um pavilhão cultural na COP pode ser a resposta para essa lacuna. “Como integrantes do setor criativo, temos um enorme poder para moldar perspectivas amplamente compartilhadas, conscientizar sobre questões urgentes que afetam o planeta, construir entendimento e consciência coletiva e incentivar mudanças de comportamento.”
Desde Dubai, o E+C Pavilion passou por países como Tailândia, Estados Unidos e Brasil, construindo uma ponte entre as negociações climáticas formais e as indústrias criativas, que sempre souberam como se conectar com as pessoas. Hoje, o pavilhão marca presença constante nas conferências da UNFCCC, lembrando a todos que a cultura — seja por meio da música, da poesia, do cinema, das artes visuais ou da narrativa — é uma ferramenta valiosa para comunicar questões relacionadas ao clima.
O E+C Pavilion foi concebido para tornar permanente algo que, por muito tempo, aconteceu apenas de forma pontual: a presença de artistas e lideranças culturais à mesa onde são discutidas as futuras políticas climáticas.
DJ Tamy Reis se apresenta no Global Citizen LIVE: Rio, dando o tom de um dia de música, cultura e ação no Rio de Janeiro, Brasil, em 6/6/2026. Imagem: Getty Images
A música faz esse trabalho há muito tempo
A música há muito ajuda as pessoas a se conectarem com questões sociais e ambientais urgentes. Em 1971, *What's Going On*, de Marvin Gaye, deu voz a preocupações com a poluição e a degradação ambiental antes mesmo de as mudanças climáticas entrarem no debate público de forma mais ampla. Em 1985, o Live Aid arrecadou milhõespara o combate à fome e ajudou a levar uma crise humanitária distante para dentro de casas ao redor do mundo. A música tem uma capacidade única de fazer com que questões complexas pareçam pessoais, transformando desafios abstratos em histórias nas quais as pessoas se identifiquem.
Na Global Citizen, vemos esse poder de perto. Nossos eventos reúnem artistas, defensores de causas e comunidades para criar oportunidades de aprendizado, mobilização e ação. A música atrai o público, mas o objetivo é transformar conscientização em engajamento.
No ano passado, o Global Citizen Festival: Amazôniaajudou a viabilizar mais de US$ 1 bilhão em compromissos voltados à proteção da Amazônia, apoiando fundos liderados por povos indígenas e iniciativas baseadas na natureza, incluindo o The Chief Raoni Legacy Fund, o Fundo Flora e o Forest Threats and Fire Prevention Fund.
Esses compromissos foram impulsionados pelas vozes de pessoas em todo o mundo, que realizaram 4,4 milhões de ações — o maior número registrado nos últimos cinco anos — pedindo que governos, empresas e organizações filantrópicas ampliassem seu apoio às pessoas e ao planeta. Essa mobilização foi inspirada pelos artistas, palestrantes e lideranças comunitárias que ajudaram a levar essas questões a uma audiência global.
Um reencontro com propósito
Quando Ms. Lauryn Hill e Wyclef Jean subiram ao palco no Rio de Janeiro, ajudaram a ampliar uma conversa global sobre o futuro do planeta que alcançou milhões de pessoas.
Lauryn Hill e Wyclef Jean se reuniram para celebrar os 30 anos de *The Score*, álbum icônico dos Fugees. Hill já havia participado do Global Citizen Live em 2021, quando ela e os demais integrantes do grupo surpreenderam o público em Nova York. Em 2023, retornou para ser uma das atrações principais do festival realizado no Central Park, em comemoração aos 25 anos de *The Miseducation of Lauryn Hill*.
Com essas participações, Hill se tornou uma presença recorrente nos eventos da Global Citizen. Também passou a representar, de forma consistente, a visão da organização de que a música pode estimular o engajamento do público em temas importantes. *The Score* é amplamente reconhecido como um dos álbuns mais influentes de todos os tempos, tendo ajudado a expandir o alcance do hip-hop ao fundir diferentes gêneros musicais, elevar a narrativa e levar uma perspectiva global ao grande público — um legado que continua influenciando a cultura através das gerações.
Ao lado deles estiveram Ludmilla — vencedora do Latin Grammy e a mulher negra mais ouvida da América Latina —, além de YG Marley e Zion Marley. Por meio da música, da narrativa e da participação do público, o evento conectou cultura e impacto, convidando pessoas de todo o Brasil e do mundo a se envolverem com questões climáticas e a apoiarem comunidades que estão na linha de frente das mudanças ambientais.
O show encerrou a Rio Nature & Climate Week, uma semana de debates políticos de alto nível, eventos comunitários e diálogos sobre o clima envolvendo mais de 30 países. A Global Citizen esperava que a experiência conectasse esses esforços políticos a um público mais amplo, ajudando a levar as discussões climáticas para além das salas de conferência e aproximando-as das comunidades.
Quando a música parou, o trabalho continuou. E, no fim das contas, é isso que um grande show sempre faz: incentivar as pessoas a continuarem engajadas com questões importantes muito depois de o evento terminar.