Rádio e Pólio: como as ondas de Moçambique apoiam a vacinação infantil

Autor: Lucy Fulford

Enquanto uma equipe de vacinação contra a pólio seguia a pé em direção a uma fileira de casas com telhado de capim em um vilarejo pequeno da província de Inhambane, em Moçambique, uma voz vinha soprando com o vento. Misturado aos sons de crianças brincando e de um galo cantando, dava pra ouvir um programa de rádio. Nos cantos mais remotos do país, o rádio ainda chega até as pessoas.

A quase 500 quilômetros dali, em um prédio movimentado em Maputo, comunicadores como Stela Mapanga lideram a programação de cerca de 86 rádios comunitárias ativas por Moçambique — atravessando províncias e idiomas bem diversos. Na preparação para as campanhas de vacinação do país, em programas com títulos como Field of Development e Health and Life, jornalistas voltam a atenção para a saúde.

“Uma grande parte do país usa rádio”, disse José Trindade, chefe do departamento técnico do Instituto de Comunicação Social (ICS), da Rádio e Televisão Educativa Nacional de Moçambique, ao Global Citizen. “O rádio pode usar línguas locais e é mais barato de implementar do que a TV — então pode ser a melhor mídia pra alcançar as pessoas em Moçambique.” Em um país onde se estima que 18 milhões de pessoas sejam alcançadas por rádios comunitárias, as ondas do rádio são uma ferramenta poderosa na luta para acabar com a pólio.  

Respondendo ao Retorno do Poliovírus Selvagem à África Austral

Moçambique fez 2 campanhas nacionais de nOPV2 em 2025, para vacinar toda criança menor de 10 anos, independentemente do histórico vacinal. Imagem: Lucy Fulford para Global Citizen

Moçambique vem enfrentando um surto de pólio desde 2022, que começou no vizinho Malaui, quando foi confirmado que uma menina de três anos tinha pólio selvagem. Apenas três meses depois, Moçambique identificou o primeiro caso de paralisia causada pela doença: um menino no norte da província de Tete.

Foi o primeiro caso de pólio selvagem desde 1992, quando terminou a guerra civil moçambicana, que durou 16 anos e atrapalhou a vacinação em grande escala. A pólio é uma doença viral altamente infecciosa, que muitas vezes se espalha por água e alimentos contaminados. Não tem cura e pode causar paralisia, afetando com mais frequência crianças com menos de 5 anos.

Até o fim de 2022, mais oito crianças ficariam com deficiência por causa do vírus selvagem — que, geneticamente, foi rastreado até o Paquistão, um dos dois países onde a doença ainda é endêmica. Variantes do poliovírus afetaram outras 26 crianças em diferentes partes do país, à medida que o poliovírus voltava a circular na África Austral.

Foi declarada uma epidemia de pólio, e o Ministério da Saúde de Moçambique iniciou campanhas de vacinação regionais direcionadas e também nacionais, trabalhando com o UNICEF, a Organização Mundial da Saúde e outros parceiros da Iniciativa Global de Erradicação da Pólio para garantir duas gotinhas da vacina oral contra a pólio para cada criança. O surto de vírus selvagem no país foi encerrado em maio de 2024, e a vacinação continuou contra as variantes, usando a vacina nOPV2.

Fazendo Barulho com Mensagens Sobre a Pólio

Chegar a cada criança não é pouca coisa em um país com um território enorme, às vezes com pouca infraestrutura e muitas comunidades extremamente isoladas. As equipes de vacinação precisam lidar com conflitos localizados no norte, na província de Cabo Delgado, com populações deslocadas internamente, com alta mobilidade nas seis fronteiras do país e com os impactos das mudanças climáticas — enquanto ciclones e conflitos também danificaram equipamentos de rádio na região, que são usados para avisar as comunidades sobre a chegada das equipes. 

Agentes contra a pólio vão de moto em Inhambane, Moçambique, numa campanha nacional em jun/2025. Motos ajudam na mobilização antes das ações e com equipes em áreas rurais, pra conscientizar. Imagem: Lucy Fulford para Global Citizen

Dentro desse cenário complexo, a ampla rede de rádios comunitárias do ICS é uma “aliada estratégica na promoção da saúde”, disse Denizia Pinto, da coordenação de mudança social e comportamental do UNICEF e da resposta ao surto de pólio — e que também lidera treinamentos de comunicação com jornalistas. 

“Na resposta à pólio, a gente adota uma abordagem multicanal para alcançar públicos diferentes tanto em áreas urbanas quanto remotas”, explicou ela. Isso vai de anúncios na TV a alertas por SMS e até alto-falantes na traseira de motos. “A rádio comunitária, em especial, tem um papel essencial como um meio confiável, muito conectado às comunidades rurais e capaz de transmitir informações em línguas locais.”

Além de transmitir em português — a língua oficial de Moçambique —, apresentadores do ICS alcançam a outra metade da população que fala uma das mais de 40 línguas locais do país, incluindo Ndau, Sena e XiTsonga. Os comunicadores trabalham junto com as equipes de campo do ICS, reforçando mensagens que também são levadas por unidades móveis com megafones em comunidades com pouca recepção de rádio, antes da campanha de vacinação. Uma parceria público-privada garante que o recado chegue ainda mais longe, em outras emissoras.

Toda terça-feira, o programa de Mapanga na maior estação de rádio do país aborda temas de saúde — de doenças como cólera e malária até alimentação saudável. Antes de duas rodadas nacionais de vacinação contra a pólio em junho e julho de 2025, que alcançaram até 92% de cobertura, os convidados especiais na rádio do ICS foram médicos e diretores de saúde, e a conversa virou para a pólio.

“Eu mesma produzi um programa em que falei sobre as consequências da doença e as formas de preveni-la”, disse Mapanga. “Eu destaquei as campanhas de vacinação, dizendo que todas as mães, pais, responsáveis e cuidadores precisam ficar por dentro, pra levar as crianças pra vacinar. Eu reforcei que a vacinação é o único meio de prevenção.”

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Ahead of polio vaccination campaigns, radio journalists play a pivotal role in raising awareness and combating vaccine hesitancy.
Image: Lucy Fulford for Global Citizen

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Mozambique’s Institute of Social Communication (ICS), via National Educational Radio and Television, offers programming across 86 community radio stations, reaching people throughout the country’s vast geography. Image: Lucy Fulford for Global Citizen

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Polio messaging on Mozambican radio includes slogans such as, “Vaccinate and protect. Let’s guarantee a polio-free future.” Image: Lucy Fulford for Global Citizen

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Technical chief José Trindade wears his ICS jacket in the radio studio. The Institute of Social Communication (ICS) has been operating since 1978. Image: Lucy Fulford for Global Citizen

Programas em emissoras como a Rádio Comunitária Mocuba colocam mensagens de saúde em linguagem do dia a dia, explicam onde acessar as vacinas, trazem entrevistas com especialistas para combater desinformação e, talvez o mais importante, incluem um espaço de participação por telefone para perguntas. “Nas províncias também, pelas rádios comunitárias, a gente sempre abre espaço pra interação”, diz Mapanga — que já entrevistou até um convidado que foi visitar os estúdios depois de um chamado no ar.

Comunicar por que vacinar virou ainda mais importante do que explicar a doença em si. Conforme a resposta ao surto chegou à 11ª campanha e alguns pais passaram a questionar por que a criança precisava de doses repetidas, apresentadores pediam que os entrevistados explicassem como os reforços funcionavam. Enquanto isso, slogans e anúncios iam ao ar entre os programas, dizendo: “A vacina é gratuita, segura e deve ser tomada até por crianças que já foram vacinadas antes. Ela reforça a imunidade contra a pólio.” 

Mobilizando por Mudança

O rádio faz parte de um programa mais amplo de mobilização comunitária que acompanha a resposta ao surto em Moçambique. Antes das campanhas, exercícios de escuta social — de consultores participando de reuniões comunitárias de rotina até o monitoramento de redes sociais — buscam entender o que as pessoas estão sentindo e dizendo

humor nas ruas, identificar quaisquer barreiras que possam surgir para a aceitação da vacina e entender quem são, hoje, as vozes mais confiáveis quando o assunto é saúde na comunidade.

Uma placa em frente a um centro de saúde diz: “A pólio causa paralisia infantil e não tem cura. Vacine seus filhos agora.” Imagem: Lucy Fulford para Global Citizen

Entender o cenário e as atitudes que predominam desse jeito faz com que a comunicação sobre pólio não fale com todo mundo do mesmo jeito, e sim que seja adaptada a cada comunidade — e apresentada por pessoas que elas conhecem e em quem confiam.

Quando Moçambique mudou, no ano passado, para a vacinação contra pólio em menores de 15 anos por causa do perfil dos casos, isso exigiu uma mudança na comunicação em relação às campanhas regulares para menores de 5. “Em vez de o nosso público principal ser pais ou cuidadores, agora são adolescentes que têm certo poder nas decisões”, disse Pinto. “Eles têm opinião. Então direcionamos as mensagens para eles.”

Neste ano, a inclusão virou um grande foco. “Na maioria das vezes, nossas mensagens de saúde são direcionadas às mães, mas a gente sabe que os pais têm uma influência decisiva na vacinação”, disse Pinto. “Estamos tentando deixar bem claro: isso também é para os pais. Vacinar as crianças é uma responsabilidade coletiva.” Isso apareceu em um treinamento para jornalistas de rádio sobre como integrar a questão de gênero nas conversas — e também sobre como as comunidades podem relatar casos suspeitos de paralisia.

Quando as equipes de monitoramento verificam a qualidade e a cobertura das campanhas contra a pólio, elas perguntam como as pessoas ficaram sabendo da vacinação. Dados recentes mostraram que 90% das pessoas entrevistadas já tinham ouvido falar da campanha com antecedência, e que o rádio comunitário estava entre as três ou quatro principais fontes no país. De volta às portas das casas na província de Inhambane, quando os vacinadores perguntaram aos pais se eles tinham ouvido falar da campanha contra a pólio, alguns disseram que souberam por vizinhos, outros por clínicas — e outros, pelo rádio.


Nota do Editor: Esta reportagem só foi possível graças à United Nations Foundation 2025 Press Fellowship on Individual Reporting on Polio. Ela faz parte do conteúdo financiado por doação do Global Citizen por meio da Bill & Melinda Gates Foundation.