Há só alguns anos, o presidente francês Emmanuel Macron defendia com força a ajuda internacional na Cúpula de 2023 por um Novo Pacto Global de Financiamento, em Paris. Diante de líderes do mundo todo, Macron pediu que mais países se juntassem a ele para construir um novo sistema financeiro internacional que funcione para todo mundo, declarando: “Nenhum país deveria ter que escolher entre combater a pobreza, enfrentar as mudanças climáticas ou preservar a biodiversidade.”

Mas essa visão agora está em risco. Embora Macron continue se posicionando a favor da cooperação global, o clima político na França — historicamente um dos maiores doadores de ajuda do mundo — começou a virar de um jeito repentino e drástico. Sob pressão fiscal e com um cenário político bem dividido, a França cortou o orçamento de desenvolvimento de 2025 em mais de €2 bilhões (quase 40% do total), o maior corte da sua história. E a vida de milhões de pessoas que dependem desse apoio agora está seriamente ameaçada.

Por que essa virada tão brusca? Vamos voltar um pouco no tempo — e falar sobre o que você pode fazer para ajudar.

Como Chegamos Até Aqui?

Não faz tanto tempo assim: em 2021, a França colocou no papel sua promessa de cumprir a meta da ONU de gastar 0,7% da sua Renda Nacional Bruta (RNB) com ajuda externa, ou Assistência Oficial ao Desenvolvimento (AOD), até 2025 — e transformou isso em lei. A ideia era consolidar o legado francês de liderança em desenvolvimento internacional, algo que o país sempre mostrou na prática com mecanismos criativos de financiamento. De um imposto sobre passagens aéreas criado em 2005 para apoiar ações contra a AIDS a um imposto sobre transações financeiras (ITF) de 2012 voltado à saúde global, a França destinava pelo menos €738 milhões por ano para a ajuda internacional por meio desses chamados “impostos de solidariedade”.

Mas, em meados de 2023, começaram a aparecer rachaduras. Primeiro, a meta de 0,7% foi adiada discretamente em 5 anos, para 2030. Depois, no início de 2024, o ministro das Finanças Bruno Le Maire anunciou um corte pesado de €742 milhões na ajuda. Só que, após uma temporada política caótica (incluindo um governo que caiu e uma troca rápida de primeiros-ministros), a França soltou uma bomba ainda maior: cortes de AOD que somam €2,1 bilhões (uma queda de cerca de 39%). E tem mais: agora o país está redirecionando seus impostos de solidariedade para longe da AOD, secando uma fonte-chave de ajuda (mesmo com potencial de crescer muito com fiscalização adequada). Se essa tendência continuar, a França pode registrar uma queda total de €21,2 bilhões na ajuda nos próximos cinco anos.

Por Que Esse “Cavalo de Pau”?

Então o que explica essa mudança de rumo? A resposta passa pelo déficit público que não para de crescer na França e pelo avanço da extrema direita, que defende que, com aperto financeiro em casa, cada Euro deveria ficar dentro das fronteiras francesas. É uma história parecida com a de outros países ricos que também vêm reduzindo a ajuda. O paradoxo? Mesmo com o rombo no orçamento, a França ainda planeja aumentar os gastos militares para 2% do PIB em 2025 (ecoando uma decisão parecida no Reino Unido).

Esse retrocesso acontece justamente quando a necessidade global só aumenta. No pós-COVID-19, a pobreza extrema e as desigualdades em saúde voltaram a crescer. E, embora críticos muitas vezes tratem a ajuda externa como caridade, a realidade é que ela traz retornos estratégicos importantes para todo mundo — com mais estabilidade global e economia no longo prazo em saúde e clima — além de melhorar relações e reputações geopolíticas.

A Liderança da França — e o Acesso do Mundo a Vacinas — Estão em Jogo

Hoje, a França é o quinto maior doador de AOD do mundo e uma das principais fontes de financiamento climático no planeta. Também tem um papel enorme na saúde global como terceira maior contribuinte da Gavi, a Vaccine Alliance. A Gavi já salvou a vida de milhões de crianças mais vulneráveis do mundo contra doenças mortais como sarampo, poliomielite, HPV e muitas outras.

No ano passado, Paris sediou o lançamento da campanha mais recente de reposição de recursos da Gavi, enviando um recado forte sobre o compromisso da França com a saúde pública. A Gavi quer arrecadar US$ 9 bilhões até junho de 2025 para vacinar 500 milhões de crianças, salvando até 9 milhões de vidas. Mas agora os cortes na ajuda colocam em risco a promessa de €813 milhões que a França fez no ano passado. A imagem é forte: no mesmo ano em que celebrou décadas de liderança em saúde global, a França começou a desmontar seus impostos de solidariedade.

Para você ter uma noção do tamanho disso: €2 bilhões em cortes poderiam ter vacinado 200 milhões de crianças — quase três vezes a população da França. A Oxfam França destacou que essa quantia também equivale a um ano de ajuda alimentar para 9 milhões de pessoas no Leste da África. E o orçamento esvaziado também ameaça o financiamento de outros grupos multilaterais, como a UNITAID e o Fundo Global de Luta contra AIDS, Tuberculose e Malária. Não é só sobre um orçamento — são vidas reais em jogo.

Se os parlamentares não mudarem de rumo, a França também pode colocar em risco parcerias importantes com países do Sul Global que ela quer se aproximar. Isso decepciona ainda mais quando você lembra que a França vinha tentando ser um contrapeso à onda de nacionalismo e isolacionismo em outros lugares. Agora, parece estar correndo o risco de seguir pelo mesmo caminho.

A França Consegue Mudar de Rumo de Novo?

A situação pode parecer bem preocupante, mas a discussão continua pegando fogo. Pesquisas indicam que a população não está comprando a ideia desses cortes. 59% dos franceses apoiam manter — ou até aumentar — os gastos com ajuda. Ao mesmo tempo, um grupo de 25 deputados de diferentes correntes políticas condenou os cortes em um artigo de opinião conjunto. E, depois do corte pesado de 83% dos EUA na ajuda internacional, ficou um vazio no cenário global — e também uma oportunidade para outros países, como a França, assumirem a dianteira e mostrarem liderança de verdade.

Até porque, embora a AOD seja só uma fatia pequena do orçamento nacional da França, o impacto dela é gigantesco. Ajuda significa mais acesso a vacinas, comida e educação — e menos instabilidade, migração forçada e

conflito — especialmente em regiões como a África, historicamente uma das principais destinatárias da ajuda francesa.

O que você pode fazer

Mesmo que esses cortes já tenham sido aprovados, a luta para manter a presença global da França ainda não acabou — principalmente com a cúpula final de reposição de recursos da Gavi em Bruxelas, agora em junho. A França ainda pode fazer mais voltando atrás nesses cortes prejudiciais o quanto antes, devolvendo os impostos de solidariedade ao seu propósito original e cumprindo com um compromisso forte com a Gavi.

Some a sua voz ao debate e cobre a França para manter sua liderança global e honrar seu compromisso com a Gavi. Converse com suas amizades e com sua família e compartilhe informações online para explicar o que está em jogo. Você também pode assinar nossa petição pedindo que a França interrompa esse retrocesso catastrófico na ajuda.

Se você estiver na França, entre em contato com seus/suas representantes para condenar esses cortes e incentivar reformas tributárias mais inovadoras. Existem alternativas inteligentes: impostos de solidariedade mais fortes, por si só, poderiam arrecadar €2 bilhões adicionais — exatamente o valor que está sendo cortado agora. Direcionar esses recursos para onde eles são mais necessários ajudaria a recuperar a posição global da França (especialmente no Sul Global) e, ao mesmo tempo, salvaria inúmeras vidas.

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Derrote a Pobreza

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Por Victoria MacKinnon