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A advogada egípcia e defensora de direitos humanos Hoda Abdelmoneim está atualmente na prisão, em condições extremamente graves, onde já sofreu um AVC e um ataque cardíaco. Mesmo com a piora do seu estado de saúde, Abdelmoneim — ex-integrante do Conselho Nacional de Direitos Humanos do Egito — foi impedida de receber visitas na Penitenciária Feminina Al-Ashir Men Ramadan, em Sharqia, no Egito. Embora tenha concluído a pena inicial pela acusação de “integrar e financiar um grupo terrorista”, ela continua presa após uma renovação injusta da sentença — apesar de o Código de Processo Civil egípcio proibir que alguém seja julgado e punido novamente pelo mesmo delito.

Gehad Khaled, uma de suas filhas — e também ativista de direitos humanos — conta como a prisão contínua da mãe tem impactado a família e do que outras defensoras e defensores de direitos humanos, como a mãe dela, precisam.

Eu sou Gehad Khaled.
Sou uma defensora egípcia de direitos humanos, nascida e criada no Cairo, em uma família que fazia parte da oposição.

Meu pai passou anos na prisão quando eu tinha seis anos, por causa da atuação dele no sindicato dos advogados depois de vencer as eleições da entidade. Pouco tempo depois, foi preso por combater a corrupção e ficou três anos detido.

Cresci sonhando com uma revolução contra o regime militar corrupto — e, quando ela aconteceu em 2011, eu estava lá, vendo parte do meu sonho se tornar realidade. O que mais importa pra mim é a liberdade, a justiça e ver, um dia, meu país respeitando os seres humanos. Minha causa hoje é conseguir a libertação de todas as pessoas presas por motivos políticos. Pode parecer um sonho enorme, mas é por isso que eu vivo.

Desde 2019, todo o meu trabalho tem sido defender a liberdade de pessoas presas por motivos políticos no Egito. Também atuei por algumas pessoas no Oriente Médio e no Norte da África (MENA), mas decidi manter o foco no Egito. Trabalho de forma independente, mas, claro, colaboro com diferentes ONGs e com muitas e muitos colegas. Antes disso, eu documentava violações de direitos humanos no Egito. Faço missões de advocacy na União Europeia e na ONU, e eu também fazia algumas nos EUA, mas essa parte está em pausa por enquanto.

Retrato de Gehad Khaled sob uma pérgola no Parc de Bruxelles, Bruxelas, Bélgica, em abril de 2025.
Image: Nikolaos Akritidis for Global Citizen

Cresci vendo minha mãe trabalhar como voluntária a vida inteira.
Ela sempre esteve trabalhando pelo propósito dela. Era advogada, pesquisadora, consultora e também fazia trabalho voluntário em várias instituições de caridade. Ao mesmo tempo, era uma esposa perfeita e uma mãe incrível para as quatro filhas. Eu sempre a vi como uma super-heroína — alguém que nunca esquecia nenhum detalhe do trabalho nem da família.

A prisão dela foi como uma bala no coração da família. Acho que nada estaria nos mantendo de pé, se não fosse todo o amor e apoio que ela sempre nos deu. Ela construiu algo duradouro dentro da gente. Estamos só tentando ser fortes por ela, enquanto cada uma de nós enfrenta, todos os dias, um monte de questões que precisariam do conselho dela. Ela não é só nossa mãe — é nossa melhor amiga. E a parte mais difícil é quando minhas sobrinhas e meus sobrinhos perguntam por ela, perguntam quando a teta vai voltar.

Minha sobrinha mais nova fez seis anos em fevereiro de 2025. Ela nunca conheceu a mamãe.
Ela a conhece pelas fotos espalhadas pela casa e sempre pergunta por ela.

Às vezes, quando minha família não consegue visitá-la ou quando alguém de nós fica ansiosa de repente, a primeira coisa que vem à cabeça é: o que está acontecendo com ela agora? Dá muito medo — e é algo que a gente nunca vai conseguir superar enquanto ela não estiver em casa, em segurança. Minha mãe tem 66 anos e a saúde dela piorou muito; o que deveria estar acontecendo era a gente levar ela pra casa e cuidar dela, em vez de ela ficar sozinha numa cela. A gente não consegue saber como ela está a qualquer momento, e ela, como mãe e avó, não sabe nada do que está acontecendo com a gente.

Gehad Khaled

Gehad Khaled
Gehad Khaled holds a selection of family pictures that show her mother, Hoda Abdel Moneim, together with her siblings while photographed in Brussels in April 2025.
Nikolaos Akritidis for Global Citizen

Gehad Khaled

Gehad Khaled
Gehad Khaled holds a photograph of her as a toddler, captured by her mother, Hoda Abdel Moneim, in Brussels, Belgium in April 2025.
Image: Nikolaos Akritidis for Global Citizen

O mais irônico é que minha mãe trabalhou em um projeto sobre melhorar as condições das prisões.
Na época, ela era integrante do Conselho Nacional de Direitos Humanos.

Depois do golpe militar de 2013, ela passou a documentar as violações, especialmente os desaparecimentos forçados. Hoje, o regime no Egito não dá nenhuma chance para existir espaço cívico de qualquer tipo. Uma pessoa como minha mãe (que documentou essas violações) é vista como alguém que precisa ser punida — mesmo ela tendo se aposentado um ano e meio antes da prisão, por questões de saúde.

A gente precisa que o mundo entenda que não há respeito ao Estado de Direito no Egito.
Minha mãe enfrentou um julgamento injusto e foi condenada a cinco anos. Ela cumpriu a pena inteira, mas depois abriram outros dois processos com as mesmas acusações, o que é ilegal. Isso virou um padrão com a maioria das pessoas que já cumpriram sua pena — a gente chama isso de “rotação”.

Hoje, não existe espaço para qualquer atividade de direitos humanos no Egito, porque todo mundo é ameaçado pelo regime. O clima público é sufocante.

A gente precisa que a comunidade internacional de ativistas dê visibilidade à questão egípcia, fale sobre isso e cobre seus/suas representantes — especialmente com todos os aliados que o regime egípcio tem agora.

Existem muitos desafios enfrentados pela sociedade civil egípcia.
Para ativistas dentro do Egito, o risco é ser preso ou ter a viagem proibida. Às vezes, a pessoa é incluída em uma lista de terrorismo — como está acontecendo agora com o advogado e defensor de direitos humanos Mohamed El-Baqer, ao mesmo tempo em que ele participa do diálogo nacional.

Se Você é ativista fora do Egito, também pode enfrentar repressão transnacional, como ser colocado em uma lista de terrorismo ou ter familiares proibidos de viajar. Também existem, claro, casos de embaixadas que não emitem nenhum documento oficial para

ativistas e, às vezes, até prendendo um ou alguns membros da sua família.

As coisas precisam mudar.
Antes de tudo, precisamos da libertação de todos os ativistas, defensores de direitos humanos, advogados e jornalistas. Precisamos de respeito ao Estado de Direito e de não recorrer a tribunais especiais em julgamentos civis. Também precisamos que a proibição de viagem imposta a todos os defensores de direitos humanos e ativistas seja suspensa.

Pessoas comuns precisam continuar falando sobre os prisioneiros políticos e pressionar seus regimes — e o regime egípcio — para exigir essas mudanças. Precisamos de todas as vozes nessa luta, porque é a nossa liberdade e, literalmente, as nossas vidas que estão em jogo.

Detalhe das mãos de Gehad Khaled segurando o celular com a foto da mãe, Hoda Abdel Moneim, como tela de bloqueio.
Image: Nikolaos Akritidis for Global Citizen


Este artigo, narrado para Gugulethu Mhlungu, foi levemente editado para dar mais clareza. A série In My Own 2024-2025 faz parte do conteúdo financiado por grants da Global Citizen.

In My Own Words

Derrote a Pobreza

Minha mãe está presa por defender direitos humanos. Ver ela livre é meu sonho.